sexta-feira, 16 de novembro de 2012

*Letícia e Eu*


Fui amigo de uma garota chamada Letícia, nós éramos os melhores amigos na escola. Tinha um professor -de química-, todos nós adorávamos ele. Ele tinha um jeito de falar que encantava a todos, era a aula mais calma que tínhamos. Letícia era que um tanto apaixonada pelo professor Humberto, conversávamos muito sobre isso, riamos muito dessa coisa clichê "aluna-que-é-apaixonada-pelo-professor-que-nem-sabe-que-ela-existe", mas o professor Beto (era assim que ela gostava que o chamássemos  não era assim, ele conseguia dar uma atenção especial pra cada um de nós, os 30 alunos daquela turma bagunceira que dividia seu tempo entre idas à coordenação pedagógica, as aulas, a cantina e o pátio no intervalo, um dia o professor Beto disse à Letícia que precisava conversar com ela depois da aula. Letícia era a menina mais bonita e inteligente da turma, mas não percebeu... E nós ficamos zoando a menina dizendo que o Professor Beto ia se declarar pra ela...


Depois da aula, o professor drogou-a e a levou de carro pra um bairro distante, num terreno baldio, e estuprou Letícia violentamente. Com medo que ela contasse para alguém, ele a torturou por mais de duas horas, a estrangulou até a morte e a esquartejou, por fim enterrou os pedaços do corpo em sete buracos diferentes. O espírito de Letícia agora vaga por aquele terreno, assombrando os casais que por ventura se atrevam a entrar lá à noite. Agora que você leu a história de Letícia, te peço gentilmente para ajudar o espírito de Letícia a descansar em paz. Cace todos os estupradores do mundo, vigie-os, denuncie-os. Se você não fizer isso, Letícia irá te visitar, e fazer-lhe sentir a dor de ser torturado... Parece coisa de corrente, né  Mas deixa eu continuar...
No começo, nós não acreditávamos nisso, mas aí as coisas estranhas começaram: Luisa riu da história e disse que a culpa de Letícia ter sido estuprada era da própria Letícia, que se insinuava pro professor. No dia 18 de fevereiro seu corpo foi encontrado em pedaços no quintal da casa da namorada. O mesmo aconteceu com Amanda, encontrada estrupada e morta em casa, no próprio quarto, com portas e janelas trancadas por dentro. Nestes anos após a morte de Letícia, muita coisa estranha começou a acontecer na cidade. Muita gente morrendo de forma bizarra, e sempre tinha alguma ligação com o terreno, ou com Letícia.
Semana passada fui ao terreno baldio -nada conseguia ser construído ali, tentaram-se várias vezes, mas sempre ocorriam estranhos acidentes. Há um ano a prefeitura mandou mura-lo todo, mas no muro sempre aparecia um misterioso buraco, grande o suficiente para uma pessoa passar, até o dia que a prefeitura apenas colocou uma placa dizendo "Perigo. Afaste-se!".

Era uma noite de lua cheia e céu limpo, eu levava embaixo do braço um tabuleiro oui-ja que comprei num antiquário no centro, na biblioteca eu emprestara um livro sobre magia e o li até saber cada página de cor. Na outra mão uma sacola com outras coisas e meu caderno de anotações, onde eu anotara cada passo e palavra do Rito de Chamada.
Eu pretendia falar com Letícia, pedir que ela parasse com aquilo.


Entrei no terreno e senti um frio intenso cobrir todo o meu corpo 'ela está mesmo aqui' pensei. Fui até o meio do terreno -onde o jornal (que eu guardara desde o evento) dizia ter sido encontrada sua cabeça, com os olhos vazados, a língua cortada, ouvidos perfurados. A cena foi tão pavorosa que nenhum jornal da cidade publicou uma foto sequer.
Fiz de acordo com o manual: cavei uma pequena vala em círculo, derramei sal por toda ela, desenhei os símbolos com um galho verde virgem -recém tirado de uma roseira-brava que a família de Letícia mandara plantas daquele terreno em homenagem a filha -a única planta que viçava por ali. Nem um mato sequer crescia ali.
Coloquei a tábua oui-ja no centro do círculo, acendi os sete incensos, as quatro velas, comecei a recitar a evocação 

'Ego invocant te, spiritus sufferens, ad manifestandam vestra praesentia in loco isto iacet anima inlaqueaverunt'. 

Não sei como explicar, mas quando terminei a evocação, foi como se o silêncio da noite ficasse ainda mais profundo, quase sólido.
Alguns instantes depois, ouço vindo por de trás de mim uma voz rascada, como a voz pastosa de alguém que acabara de acordar dum sono pesado, profundo. 
"Estou aqui Ary. Eu sei porque me chamou. Eles tem que pagar."
Não me atrevi olhar pra trás, tinha medo de olhar o espírito da minha amiga. Continuei olhando a tábua oui-ja e meio que senti/ouvi um tipo farfalhar leve e percebi que ela estava à minha frente, do lado de fora do círculo protetor 'graças à Deus, isso funciona!' pensava nervoso enquanto suspirava... Finalmente falei 
"Lili, o Beto já foi preso. Pegou mais de 70 anos sem condicional. Ele provavelmente vai morrer na cadeia. Então..." o sangue pareceu gelar nas minhas veias quando ouvi aquela voz mofada, triste, dizer 
"Ele JÁ morreu, Ary. Porque você não me olha? Levanta o rosto!". Eu silenciosamente recitei 

'Creator universi dominum, mala res fragiles tueri. Quid mihi obest, non quod vultus ejus.'

 e ergui o olhar e então vi: era minha amiga, exatamente como eu me lembrava dela na última vez que a vi... Antes de tudo... Antes ''dele''. 
"Lili... Se foi você que pegou o pro... o Beto, porque ainda está por aqui?? Quer dizer, sei-lá! Se você já resolveu seu negócio pendente você não deveria ter atravessado, visto a luz o ou que quer que aconteça com os fantasmas quando eles quebram seus grilhões? Você está livre! Vá!" eu disse olhando dentro daquele olhos cor-de-amêndoa que eu tantas vezes vi rir e chorar e uma dorzinha aguda atravessou meu peito, me fazendo abaixar a cabeça levemente. O que vi me gelou o espírito e quase fechei meus olhos pra não continuar vendo aquilo: sobre a tábua oui-ja estava um triângulo de prata sólida polida, que eu deveria tocar com os dedos a cada recitação. Nele eu pude ver o reflexo de Letícia, mas o reflexo... Não era ela ali! Não como eu lembrava dela. Naquela imagem refletida eu via uma criatura com marcas de cortes profundos, onde vermes transitavam livremente entrando e saindo, via um maxilar quebrado, frouxamente pendurado pelos músculos rompidos, via buracos fundos donde escorria um líquido escuro e denso como óleo de motor, ali onde deveriam estar seus olhos. Segurando a vontade de gritar e fechar o olhos, ou virar a cabeça, respirei profunda e lentamente, me concentrei e recitei outro texto

 'Divinum angelicae potestates, invoco vos ad benigna lux entia, benignitatem, fortitudo et amoris, mihi tribuat, miserum me mortalis, omnia tua tutela contra impium dictitans malum, quod hoc mundo turbato qui subsannat vita quae data est a nascitur creatoris ipsius magistri vos mihi tantum et vagatur iam olim in vita moratus est. Custodi me!'. 

Tendo terminado a invocação, abri um sorriso que logo murchou em meus lábios ao ouvir a voz gutural, subterrânea, de Letícia dizer "Não posso partir Ary. O verme do Beto é apenas um entre vários outro monstros! E não é ele, nem minha vingança que me mantém aqui Ary. É o amor. O amor que aqui me agrilhoa.".

Muito lentamente, ainda com a cabeça baixa, comecei a desenhar os selos em minha palma-de-mão, com a primeira pena caída de uma ave de rapina. Argui: 
"Amor Lili?! Por amor você matou tanta gente que nunca te fez coisa alguma? Por amor você persegue a outros casais??". Nem bem terminei de falar e Letícia responde: 
"Sim. O amor que você sente por mim.". Foi ai que vento começou a soprar, apagando as velas e buscando desfazer o círculo de proteção e isso tudo reforçado pela voz de Letícia 
"E eu quero o meu beijo.". 

'Abhorret turbatus spiritu! Striga! Importantis strapae Amxalak vos et tenere profectum vestrum, protegens salutem meam, dans mihi transitum tutum ex hic.'. 

Vi uma luminescência rubra envolver totalmente Letícia, e no mesmo momento o vento parou, o frio cedeu um pouco. Juntei tudo que havia levado e corri pra fora daquele terreno.
"Eu te amei, Lili, mas você morreu. A vida continua. Você deve seguir adiante, em frente!" foi o que eu disse quando estava do outro lado do muro. Alguns dias depois em ocorrido, comecei a sentir calafrios pelo corpo quando estava sozinho, como se mãos congeladas me agarrassem.
Ante ontem tive um sonho onde Letícia aparecia me dizendo 
"Você não deveria ter me abandonado, Ary. Mas eu sei como resolver isto..." acordei entre tremores e suores frios. Por isso escrevo este relato. Sinto que hoje será meu último dia entre os vivos, e quis partilhar a história de Letícia e a minha. Se não tiverem mais notícias minhas, aos que me conhecem, me procurem em casa, atrás das portas trancadas...

José de Arymatéia da Silva

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

*Fico Triste*


Oi,
Escrevo esta carta, porque preciso falar com alguém sobre isso... E se é pra falar, que seja pra você!

Não sei se você vai dar importância, mas eu sinto tua falta.
Sei que você também sente de mim, mas às vezes sinto falta também de você dizer, demonstrar.

E fico triste...

Por que aí, parece que nunca será.
Não foi uma escolha racional me apaixonar por você, mas foi você que apareceu na hora que eu estava aberto pra novas tentativas.
Fui te conhecendo e, mesmo com os dissabores, raivas, aborrecimentos e etc. Comecei a amar o que você é. Não sei o que você quer ser, mas amo muito quem você é agora.

E mesmo que me fira em certos momentos, em horas incertas, ainda sigo te amando.

Ta um fim-de-tarde lindo e bucólico...
Queria que vc estivesse aqui comigo e isso, junto com a saudade, vão me entristecendo...

Agora tudo é banhado por uma suave luz laranja...

Tentei fotografar pra te mostrar, mas é um celular, não uma câmera...
Beijos, te amo!!

*frankj costa*

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

*L'oblit*


--É POSSÍVEL?!

Do interior duma casa antiga, com paredes nuas, de madeira, o grito parecia ter sido dado por uma alma que passasse por tormentos inimagináveis para qualquer mortal...

Dois homens, sentados à uma mesa que já conheceu dias melhores em sua existência tabular, cada um numa extremidade da pequena mesa: pratos amontoados, comida espalhada... baratas arrastando-se pelos cantos daquele cômodo que já há muito sofre com a incúria de seus ocupantes.

Subito um deles se levanta abre os braços e, olhando com mágoa para todo o lugar e para o outro homem a sua frente, fala numa voz dura, quase gutural, como se buscasse velar os sentimentos que os olhos já traíram:

--Construo isto aqui para o que? Para quem? Para ti?? Háh! Há muito que não demonstras qualquer interesse em minhas invencionices; minhas odisséias ordinárias, meus contos de sarjeta.

O outro homem, que premanecera sentado à mesa, olha com profunda tristeza para aquele a quem já amara um dia; mas que agora já não reconhece como seu Herói (como fora um dia):

--Não sou nenhum deus, ou se me pareço, não carrego comigo sua paciência... O que tínhamos desgastou-se! Não sei como, não sei porque... Mas já não nos fazemos mais bem, vivemos às turras. Brigamos por migalhas de pão!! Não sei se fui eu, se foste tu. Ou se simplesmente, acostumados já à presença um do outro, nos descuidados. Nos atiramos aos chacais do tempo, rotina e indiferença! NÃO SEI!!!!! Mas nossa situação já é insutentável. Peço de novo: me deixa ir! É melhor pra nós dois. Pra ti!

O homem de pé (alto, quase 2m de altura, de um amorenado na pele que certamente não vê o sol há muitos meses empalidecendo) riu de forma dura, deu a volta na mesa, aproximou-se do que estava sentado e sussurou, sibilante como uma serpente peçonheta:

--É este o deus que amei um dia(?): uma presença defunta, um fantasma, como aquele rei do Hamlet, a me pedir justiça... Liberdade!

Mordendo o lábio inferior, ainda mais pálido que o resto de sua pele; aquele pequeno homem alí sentado, indefeso... Respirou fundo levantou o rosto olhando o primeiro profundamente nos olhos:

--Eu preparei todas as mentiras... Eu fraudei o que não deveria ter sido fraudado!! Me arrependo! Mas não menti quando te amei!
Em momento algum menti ao estar sob as cobertas contigo. Jamais te menti isto. Sabias! Podias ver!! Menti sobre quem eu era, sobre minha família. Mas não sobre o que sentia! Deixa-me ir!

O primeiro homem se afasta, anda em torno da mesa. olha o outro que sentado ali, parecia tão pequeno... Tão inofensivo. "NÂO!!" pensou ele de súbito "Não vou me deixar amolecer!!". Riu um pouco e disse:

--Eu trago agora no coração uma floresta em chamas, nos olhos apenas dor... Ele é interrompido pelo segundo homem que chorando copiosamente diz que já passou da hora de se separarem! Continuar naquilo destruíria a ambos. Ele próprio já fora, não queria que seu amado também fosse.

Neste momento o primeiro homem, deixa cair uma lágrima.
Novamente se aproxima da mesa, agora empunhando uma esponja que pegara na pia quando passou próximo.

--Fuja de mim, então. Queres partir, e já não consigo mais te ver neste estado deplorável. Eis a verdade: Os mortos temem somente o esquecimento... Mas tu já não o teme mais.
Desejas o oblívio tanto quanto - ou mais - que eu te desejo aqui. Mas tens razão: Não faz mais sentido continuarmos aqui. Não te posso mais ferir. A não ser quando firo a mim próprio. Portanto: parte! Eu te liberto agora.

E com a esponja, aquele homem de quase dois metros de altura, mas magro como se não comesse há muitos dias, começou a apagar um intrincado desenho feito sobre a  mesa. Que jazia escondido entre os pratos e restos de comida.
Enquanto o desenho era desfeito, o homem que permanecia sentado sorriu ternamente, disse "eu te amo" apenas com os lábios, sem emitir som audível e começou a desaparecer.
Contudo, antes que desaparecesse duma vez, o primeiro homem o olhou nos olhos (que agora malmente eram uma sombra de olhos) e disse:

--Eu sei! Também te amo.

E com estas últimas palavras, o segundo homem sorriu ainda mais e desapareceu, enquanto a luz dum novo dia começava a entrar pelas frestas das tábuas daquela casa antiga.

*frankj costa*

domingo, 26 de agosto de 2012

*Το ένατο ώρα*

Muitas vezes, Marçal acorda na madrugada, levanta-se, vai ao banheiro e volta a dormir.
O mundo imerso em penumbra e silêncio....

Talvez por algum fator biológico - ou incrível acaso - a hora que isto acontece é sempre por volta de três horas.
Às vezes três em ponto, outras faltando pouco, ou passando um pouco.
Jamais havia prestado atenção a isto; até o dia em que começou a ouvir sons estranhos, como rugidos de animais ferozes.
Sentindo um arrepio sempre que ouvia esses sons.

Passados alguns dias deste estranho fenômeno, Marçal notou o horário: era sempre aproximado às três da madrugada.
E os sons começavam a ficar cada vez mais audíveis à medida em que os dias passavam: rosnados, vozes abafadas, gemidos e gritos -bem ao fundo, estrangulados.

Em busca de algo que explicasse tão bizarra ocorrência, começou a pesquisar, a procurar na internet. Encontrou referências a algumas religiões.
Mas quando procurou representantes destas religiões, foi algo bem frustrante: quase ninguém sabia dar explicação plausível, na verdade nem sabiam sobre o que ele falava.

Todos, menos um padre, que disse conhecer alguém que poderia ajudar.

Outro padre - já bem idoso - que vivia em um convento, praticamente isolado e pouco contato tinha com o mundo exterior.
Seria difícil falar-lhe, foi-lhe advertido, mas ele precisava tentar.
O padre Jayme (assim se chamava o que deu a informação) disse que tentaria contato.
Depois de muita dificuldade conseguiu.

Ai! Melhor não houvesse conseguido...

Foi ao encontro do tal padre.
Chegando lá, não pode negar (embora houvesse se esforçado) o susto ao vê-lo:
O sacerdote aparentava ser bem mais velho do que realmente era, sua fisionomia mostrando linhas de dor e sofrimento profundo.
Apresentaram-se e Marçal começou o relato dos acontecimentos que o levaram ali.
Padre Anastácio fixou seus olhos esgazeados em Marçal; olhou-o como se enxergasse-lhe a alma, e perguntou:

--Filho, tu realmente queres saber o que estes fatos significam? Estás preparado para saber o que tenho pra revelar?

Marçal, com certa relutância, respondera que sim.
Apesar do medo súbito que tomou-lhe o ser, ele precisava saber.

Padre Anastácio suspirou fundo, ajeitou-se numa cadeira - tão velha quanto ele - e perguntou:

--Tu sabes a hora em que Cristo morreu?

Marçal confessou não saber: tinha uma ideia vaga de que fora à tarde, mas não sabia a hora.

--Sexta feira, na Το ένατο ώρα”, como dito nos escritos gregos, a Nona Hora, ou 15 horas no sistema atual, respondeu o padre.  Quinze horas, ou 3 da tarde. Percebes?

Marçal:

--Não entendi o porque da pergunta.

--A que horas você costuma ouvir os sons? Perguntou padre Anastácio.

--Três da madrugada. Respondeu Marçal.

--Vês alguma ligação? Algo familiar? Questionou Pe. Anastácio.

E continuou:

--Os demônios satirizam o sacrifício de Nosso Senhor e usam este horário, três horas da madrugada, para festejarem, para se alegrarem em regozijo.
Aproveitam para andar pelas ruas, assustando quem por elas anda desavisado e fora de hora.
Algumas pessoas são mais suscetíveis a isto e acabam acordando perto deste horário, acabam ouvindo coisas. E, com o tempo, acabam vendo coisas...
Os sons que tens ouvido nada mais são que demônios expressando seu ódio e todo seu desespero: se arrastando pelas ruas.
Eu aviso: quando tu começares a vê-los, eles também ver-te-ão, e passarão a procurá-lo para se exibirem e o atormentarem com tal exibição.
Não sei se é o que esperavas ouvir, mas é o que tenho para a dizer.
Infelizmente.

Percebendo o terror nos olhos de Marçal, Pe. Anastácio, com um suspiro que pareceu um lamento agonizante, continuou:

--Com o passar do tempo, tu não somente os ouvirás, mas também verás coisas que tua mente jamais imaginou existir.
Agora tu sabes a razão de eu estar aqui; isolado e protegido neste convento: Somente terreno sagrado os detém! Apenas o Espaço de Adoração os pode impedir!

Durante muito tempo Marçal apenas ouvia os sons, cada vez mais altos, mais nítidos. E orava noites a fio, implorando jamais vê-los...

Finalmente, uma noite, começou a vê-los e não conseguiu mais dormir: o medo de acordar e defrontá-los, imenso. Experimentou soporíferos – em vão – pois sempre acordava à Hora Nefasta.
Há noites não dorme.
O que viu é algo aterrador, que ele deseja jamais ver novamente.

Hoje, Marçal está de mudança para o Convento e dividirá o quarto com o padre Anastácio.
Por medo e terror, pediu auxílio a um primo seu Pe. Lucindo.

Os demônios são impossíveis de descrição.
São o mal encarnado.
São o ódio vivo.
Existem.

terça-feira, 12 de junho de 2012

*SEELE*



Em quantas partes se pode dividir uma alma?

Uma parte pra cada emoção que uma pessoa pode sentir,
Uma pra cada crença que esta pessoa tiver,
Uma pra cada sonho, esperança, ilusão e decepção que ela nutrir.

Em quantas partes se divide a tua alma?

As minhas divisões, parei de contar quando cheguei na centena...

Três horas da manhã, ao longe ouço um cão solitário que uiva desesperançoso pra fria e morta lua.
Talvez uma gralha tenha cantado sobre mim, talvez tenha sido apenas o vento farfalhando as folhas...
Agora uma fina chuva começa a cair, escuto seu canto no telhado.
A temperatura cai, e caindo na inconsciência...

E, na inconsciência, me vejo envolto em espessa treva...
De súbito a escuridão se contrai e rasga-se em luz!
Todo o recinto, parvo, parco, estreito e lugubre se inunda de cores, se plena de sons e odores.
Mas ainda há um nicho de profunda sombra! Ela se move em minha direção, dela sai uma voz que diz:
-Guardião! Guardião! Me enviaram para te dizer que teu tempo está acabando. Já é hora de voltar pra casa, voltar pro céu.
Acordo sobressaltado. Fragmentos do sonho flutando em minha memória.
Um pavor gélido percorre minha espinha, os pelos da nuca se eriçam.
Não totalmente consciente, levanto da cama, ao banheiro, lavo meu rosto com água fria, tomo meu banho. Ao dejejum, como por hábito ponho dois jogos de café da manhã. E como todos os dias no último semestre, retiro um deles ao lembrar que não estás mais aqui. Um dia talvez eu me acostume com aquele prato solitário na mesa...
"É hora de voltar pra casa"... A frase soa repentinamente em minha lembrança, vívida como um ferimento recente, cruento e hemorrágico!
Quando olho pro relógio, não consigo evitar rir: ainda faltava uma hora até a alvorada.
Decidi seguir meu roteiro normalmente, apenas fazendo com mais vagar as coisas em casa.
Quando o sol principiou despontar no horizonte, sai de casa. Enquanto caminhava pro ponto de ônibus, uma outra vez a frase me veio aos ouvidos "hora de voltar pra casa.".
Quantas vezes eu não ligara pra dizer exatamente isso? "amor, já não é hora de você voltar pra casa?"?
Tanto que eu queria crer que fosse apenas um truque do meu cérebro, mas então voz deveria ser a mesma; mas não era. Simplesmente eu não reconhecia a voz que falara comigo no sonho, envolta na escuridão.

O dia transcorreu calmo, sem muitos aborrecimentos, pelo menos nada fora daquilo a que ja estou habituado.
Apenas quando cheguei em casa tive outro sobressalto: ao entrar senti cheiro daquele macarrão com molho madeira que você adorava preparar nas noites de sexta. Corri pra cozinha, estupidamente esperando te ver, mas tudo estava do jeito que deixei. Sem molho fervendo na panela, sem vc rindo porque tinha cortado o dedo, que continua sangrando -pela enésima vez- abrindo a lata.
Decidi tomar somente um café e fui assistir a um filme, sem me dar conta peguei um dos teus favoritos: "Quem tem medo de Virgínia Woolf".
Ri de mim lembrando que costumava te "ameaçar" com a destruição do disco, caso não fizesses algo como eu tinha pedido; e como você devolvia dizendo que quebraria minha coleção de Marvin Gaye.
Boas lembranças que pensei já ter esquecido, mas que agora vejo que nunca estiveram muito longe da superfície de meu coração!
Pus o disco, deitei na cama, aninhando os travesseiros ao meu colo, relembrando quantas vezes fiz o mesmo com você!
Quando chegou naquela cena memorável em que Martha confessa (mesmo que carregada de profunda melancolia, tristeza e mágoa) todo o amor que sente por George, lembrei da vez que, já bêbado, fiz algo semelhante, com lágrimas copiosas nos olhos...
"...hora de voltar pra casa..."
Como eu gostaria de poder te telefonar e dizer isto uma vez mais.
Desde que você partiu, nunca mais me permiti aproximar de alguém -não da mesma forma como me aproximei de ti.

Adormeci antes do fim do filme e acordei suado, um suor frio e pegajoso...
Nos olhos um brilho de lembrança que permanecia: a noite que te conheci.
Queimando em minha mente tal ferro incandescente, profundo, além de qualquer bálsamo.
Com o coração e a mente anestesiados, fui tomar um copo dágua, na porta da geladeira um bilhete "amor, vou viajar neste fim de semana, na terça to de volta! Não te preocupas que vou trazer aquele xadrez que te prometi, e VOCÊ vai me ensinar a jogar, ok?? Beijos, te amo!"
Não entendo como este recado ainda podia estar aqui! Já se tinham passado seis meses desde o acidente! Como eu pude não ter tirado da porta da geladeira?
O post-it, somado à recrudescente recordação que me acordara, foram demais... Me deixei cair sentado -encolhido- no chão da cozinha e o choro veio, aos borbotões!
"Teu tempo está acabando..." agora a voz repetia-se em meus ouvidos.
Cheguei a pensar, que se fosse eu do tipo religioso, poderia ter ouvido a voz da Morte. Mas nunca acreditei nestas coisas 'espirituais', mas frente aos acontecimentos de hoje... Não sei mais o que dizer, o que pensar!!
Aturdido, confuso, com a tristeza rasgando fundo no peito, resolvi sair no meio da madrugada. Depois de horas esperando um ônibus, um outro tanto de viagem, cheguei ao cemitério.
Fiquei ali naquela esquina escura, agarrado à grade, olhando pro teu túmulo enquanto escrevo isto e posto!
Das sombras sinto um frio cortante penetrando fundo em mim, algo quente jorra...
Uma dor fina, aguda, me atravessa o peito e finalmente ouço tua voz dizendo "Ai que saudade de você! Meu sofrimento já não cabia mais em mim!!"
Sinto teus braços me envolvendo, fecho os olhos e toda a dor, mágoa, tristeza e angústia me abandonam.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Das Sombras


Uma garota da cidade,
gosta de noites de lua e dias de chuva.
Ninguém entende porquê...
Todos a acham esquisita e, por mais que ela explique, ninguém entende.

À noite se pode ver as estrelas,
por isso ela prefere o campo à cidade,
e da natureza; pois sempre se vê melhor as estrelas lá.
Elas, as estrelas, lhe transmitem paz,
lhe mostram como o universo é grande,
libertam sua imaginação.
Não que não seja feliz durante o dia: gosta do dia,
do sol (bem melhor que o frio), ela não gosta do frio.
Pra ela, a cidade fica diferente:
com mais vida, mais alegria, nos bares, e todo mundo parece igual,
sendo espontânea, sem fingir que gosta daquele chato ou daquela irritante.

Na noite se escondem os mistérios, os segredos.

E a chuva?
Quando chove... aquela água gostosa relaxando os músculos.
Só assim o dia não fica quente (nem frio) demais: fica ameno, tranquilo.
Então ela se sente mais calma, como se o dia também estivesse mais calmo.
Sem a correria, sem a histeria sem o stress.
O ar fica mais limpo, o cheiro das coisas fica mais agradável; mais acentuado.
Lhe agrada o cheiro da grama molhada.
Quando chove, também, dá pra dormir, e sonhar.
Quando a chuva está mais forte, fica ótimo.

Quando faz calor os pensamentos dispersam.
Mas as pessoas nunca entendem isso.
Por isso ela vive só.
Ela vê isso nela: que todos a acham diferente, estranha.
E ninguém sabe lidar com o que é diferente.
Ninguém entende as sombras que acompanham aquela garota...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Casa


Capitulo 1: Início do Pesadelo


Alan era um jovem sem muita perspectiva de vida, órfão, morava em uma casa simples que foi herdada de seus pais adotivos a qual partiram naturalmente em conseqüência da idade. Não possuía um trabalho fixo, fazia manutenção em microcomputadores que não lhe garantia uma renda fixa ao final do mês.
Não possuía parentes, em compensação, muitos amigos que enchiam principalmente os finais de semana sua casa. Um deles era Josué como se fosse um irmão, estavam sempre um ao lado do outro em todos os momentos.
Em seis de junho de mil novecentos e noventa e seis suas vidas iriam começar a se transformar quando, em uma manhã chuvosa e fria como a noite um telegrama é recebido por Alan. Uma suposta herança havia sido deixada em seu nome, no telegrama, uma prévia explicação de um imóvel deixado por um tio seu, irmão de seu pai de criação a qual nunca conhecera. Para mais detalhes o número de um telefone estampado para contato na parte inferior da folha logo à frente do logotipo do cartório em forma de castelo, o destinatário.
Alan ligou logo em seguida e recebeu mais detalhes da atendente que tinha uma voz muito sexy. Ela informou todos os detalhes, na verdade queria sua presença no cartório, mas este era muito distante, se localizava no sul do país, distante de Alan que morava no sudeste. 
Uma casa era o que a moça de voz sexy do outro lado da linha lhe dizia e para sua surpresa ficava na cidade vizinha a sua. Informou então apenas os dados de sua localização para que ele pudesse conhecer do que se tratava. Mas para a aquisição do imóvel em definitivo teria de seguir para o sul.
- Talvez onde esse tio meu morasse – Pensou ele.
O mais estranho na verdade era a parte que Alan não conhecia. Esse seu tio de fato morava naquela casa nos anos quarenta e fugiu para o sul acusado de alguns assassinatos, lá foi detido assim que pos os pés, mas foi solto logo em seguida, pois não havia provas o suficiente. Recentemente havia desaparecido e foi encontrado na base de uma montanha de joelhos com várias velas derretidas pretas e vermelhas, ao seu lado um papel enrolado como se fosse um pergaminho, nele escritos vários nomes. Famílias inteiras desaparecidas na época de sua fuga a qual muitos o culpavam, seu corpo estava em estado avançado de decomposição.
O primeiro amigo com quem compartilhou a notícia foi Josué, ele possuía carro e insistiu para levar o amigo até o local, parecia estar até mais ansioso que o próprio dono. Josué iniciava seu expediente no trabalho somente na parte da tarde, combinou então que passaria na parte da manhã na casa de Alan por volta de nove horas, pelo que calcularam estaria na cidade vizinha nove e meia e mais alguns minutos até achar a casa então daria tempo de conhecerem o local e voltar sem que Josué se prejudicasse no trabalho. Neste dia em especial não voltaram mais a se falar, Alan que sempre dormiu tarde às nove horas já estava na cama, talvez pela ansiedade não dormisse ainda mais cedo.
Dia sete, as dez para as nove Josué já estava em frente à casa do amigo que ainda como era de se esperar estava levantando, o sol brilhante iluminava o frio tentando espantá-lo, mas sem sucesso. Alan ficou pronto somente por vota de nove e quinze quando entrou no carro, pararam rapidamente na padaria da esquina para tomar um breve café e aquecer seus ânimos. Conversaram pelo caminho e o principal assunto como era de se esperar, a casa. Alan não estava querendo nem saber dela, em qualquer estado que tivesse sua idéia era vendê-la e montar seu próprio negócio, não sabia o que exatamente, primeiro iria analisar qual seria o seu valor de venda e em segundo plano iria ver o que conseguiria.
Chegaram à cidade vizinha no horário previsto, esta uma cidadezinha pacata daquelas onde as pessoas ainda se cumprimentam nas ruas, depois de algumas informações seguiram para uma estrada que aos poucos as casas que estavam a sua volta se transformaram em um matagal e por fim o asfalto, dando início a uma estrada de terra que mais se parecia com uma rua, bem estreita. No endereço a qual o papel escrito à mão por Alan indicava, encontraram apenas uma pequena entrada que se não fosse por uma placa toda enferrujada de número seis no final não teriam encontrado. Josué já estava fazendo cara feia de ter de entrar naquele mato alto para reabrir o caminho que há muito tempo ninguém passava, seguindo em velocidade baixa muitos eucaliptos estavam ao lado tapando a entrada dos raios solares que agora lutavam para penetrar entre as folhas. Os eucaliptos pareciam milimétricamente alinhados um de cada lado da pequena entrada mostrando a perfeição de seu antigo dono. Quanto mais se aprofundavam, outras árvores se juntavam aos eucaliptos fazendo o sol lá fora desaparecer. Josué estava prestes a desistir da idéia de ter levado o amigo até aquele local, o mato que antes atrapalhava a chegada naquele parecia ter dado trégua, mas a mata densa a volta prevalecia.
Uma casa, que parecia estar muito afetada pelo tempo estava diante deles, as árvores estendiam seus galhos sobre ela, parecendo protegê-la, o chão com uma terra preta e improdutiva a sua volta não deixava que o mato intenso que desde a entrada os acompanhava crescesse. Um cenário bonito de imagens antigas que só observamos em pinturas, mas ao mesmo tempo amedrontador, pois era real.