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sábado, 20 de agosto de 2016

Na pequena caixa


Na minha pequena e velha caixa de lata, estava escondido um botão quebrado do meu casaquinho de infância.

Lembrando-me que o tempo é de dupla natureza - mesmo que ninguém atente - e então sou transportado para aquele momento embora eu permaneça aqui... como eu gostaria de ficar lá. 

Uma velha carta dobrada de baixo das pilhas de roupas no meu armário me leva para toda a glória escrita nela: lugares visitados e amados - o espaço não está consolidado. 

As velhas tábuas do assoalho da casa onde cresci me dão um vislumbre de como a vida era suposta ser - como sempre fazem as crianças em seus sonhos pueris - a vida é uma constante, apesar das mudanças. 

A fotografia desbotada de um feliz momento de um passado agora cada vez mais distante, percebo como lembranças são estranha: bonitas e tristes ao mesmo tempo - lembrando-me as contradições de querer governar nosso destino sempre. 

Em tal cativeiro de tempo, espaço, vida e destino, eu me laço em um feitiço mágico: Recordar. 

Que me liga a um contentamento para sempre de tudo o que é - me dizendo que nada mais importa, mas é.

Não importa o que. E então isto se torna tudo para mim. Todos os momentos, em todos os lugares, tudo se torna isto.
E eu percebo quem sou: Eu sou ele.













quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Reino das Sombras

Molome

No profundo no Reino das Sombras, busca-se pela luz que nunca vem, a paz que jamais chega...
Pois no Reino das Sombras, tudo se revela no limiar do crepúsculo.

E, das profundezas abissais a Escuridão uníssona encara a Treva habitante de teu interior, a despeito de tua fuga...
No limiar do crepúsculo a Luz preenche os espaços da filosofia vazia da alma perdida em dúvidas nascidas das certezas falaciosas.

No Reino das Sombras a Luz irrompe. A tudo querendo iluminar, a tudo querendo devorar... Propagando a mentira que afirma ser a luz, a verdade... E o terror se instaura no Reino das Sombras...
Observa-se o passar do Tempo, como algo advindo de um passado longínquo, hermético; dividido entre a Luz e a Escuridão, entre o Agora e o Nunca. À espera do que jamais chegara a ser mais do que um sonho vão e tolo. Assim permanece-se... Assim jaz.

E assim prossegue a luz na sua estéril tentativa de vencer as trevas. Ignorando ser ela -a luz- filha desta mesma escuridão que tão ferrenhamente agora combate.
Com a luz invadindo o Reino das Sombras, mudanças tem início. E vida inconfessa começa a surgir onde antes apenas a esterilidade existia...

Mas mesmo esta luz incipiente é natimorta. Pois nada perdura no Reino das Sombras... A iridescência finda, o brilho esmaece, as convicções esmorecem. Sim... Ao incauto viajante fica o parvo alerta: quando estiver impressionado pela luz, lembre-se que ela partirá, e apenas a escuridão permanecerá. Esta é a real essência do Reino das Sombras.
No Reino das Sombras, as criaturas mais estranhas existem, vivendo no tênue limiar entre a Luz e Escuridão. Sem jamais conseguir ocultar a Treva... Que é sua verdadeira natureza, sua real substância!!

E os viventes do Reinos das Sombras seguem cegos e ignorantes do que sucede em seu derredor. Desconhecendo a horrenda batalha entre Treva e Luz que ocorre na periferia do seu parvo existir. Assim prosseguem, ignorantes de suas prisões.
Em sua suprema angústia, a Luz convulsiona; buscando resistir a ser devorada pela trevosidade circundante. Logrará - a Luz - passar incólume às investidas da Treva Eterna?

E, na contenda entre Luz e Treva, surge o Tédio. Deformando a Existência, consumindo a Essência.
Reduzindo tudo a Nada. Talvez a menos que isso...
E todos seguem em suas aflições, dilacerados em julgamentos vãos; a Luz corroendo a tudo, permanecendo ignorante de sua própria Escuridão. Em meio a tudo, ansiando pela autoextinção...

E, consumidos em suas incertezas, os viventes no Reino das Sombras enganam-se com o próximo cigarro, o trago seguinte; o gole dado com sofreguidão no Néctar do Esquecimento. Almejando reinventarem-se um sua busca angustiosa...
Mas a Luz irrompe novamente, rasgando a Treva e tudo quanto existe no Reino das Sombras sofre sua agressão. Tudo queima, todos ardem. E a Treva convulsiona.

A vida polula por todos os rincões do Reino das Sombras. Diminuta, mas nem por isso menos significante...
Formas de Treva e Escuridão, Vazio e Nulidade movem-se em meio a Luz. Entes de consciência embotada amontoam-se nas frestas e frisos. E por todo lado a Vida vareja e agoniza, arrancada de seu útero escuro.

A Luz rasga tudo. As cores desvelam-se em sua pálida profusão. Então a ilusão de Vida extrusa das Trevas; e os combalidos habitantes do Reino das Sombras, por uma primeira vez em milênios, ousam crer em Esperança. Esquecendo ser ela prisioneira de, Pandora e sua fatídica caixa: maldição de Deuses arcaicos, ciumentos e mesquinhos, que por húbrys, apartaram-se para outros rincões do Cosmo.

A Luz (e seu agudo punhal) rasgam as carnes daqueles que vivem em plena Escuridão do Reino das Sombras...
Corta fundo, revelando vísceras, ossos, músculos.
A dor lembrando-os ainda estarem vivos. E sempre, e mais uma vez, os corpos desfazem-se em um jorro líquido rubro, pastoso e agridoce; levando os viventes aos estertores... Ao hálito derradeiro, ao limite da existência.

E tudo fende, rompe, sangra e morre...

E novas formas brotam da Escuridão, repopulando o devastado Reino das Sombras...

Mas a Luz não rende-se. E volta a expandir, queimando e destruindo tudo a que toca. Rasgando o reconfortante véu da ilusão costumeira. Destecendo realidades pré-manufaturadas, desfazendo toda segura noção de certeza.
E tudo no Reino das Sombras geme, agoniza; buscando fugir da Luz para o conforto da Treva, terna, fria, macia, acolhedora. Como um cadáver que busca retornar ao obscuro ventre da Terra...

E um novo ciclo tem início, contendas de batalhas até a chegada do Não-Tempo do Fim de Todas as Coisas.

*frankj costa*