quinta-feira, 30 de maio de 2013

VALE A PENA

Você chora, grita, sente-se só; alguns se mutilam e outros até se matam.
Não julgue quando você vir alguém assim, afinal um você pode passar pelo mesmo, ou até passou. Tenho certeza que uma vez na vida você se sentiu incrivelmente sozinho, e isso doeu. Você teve uma saudade tão grande que fechou sua garganta, seu rosto ficou pálido, e a sua boca seca, pois nem vontade de sair do quarto você teve…
Você lembra o porquê de tudo isso? Saudades de um namorado que não existe, saudades de um amigo que se foi, ou decepções normais!?
- O importante é que você superou! - Não superou? Então vamos agora! Você nem precisa sair do seu quarto, apenas coloque uma musica que você goste, uma roupa como se você pra melhor festa da sua vida. Já? Se olhe no espelho. E olhe apenas pra dentro dos seus olhos. Depois vire um pouquinho e dance sozinho. Olha pro espelho e diga “foda-se!” ao mundo, ao submundo, ao extra-mundo, ao mundo que não existe, e ao mundo que você tenta fazer existir! Vamos criar um mundo novo juntos?

Ta, nesse mundo novo, todas as ruas tem árvores e as ruas são limpas; as casas são feitas de madeira, e os bancos são feitos com a própria madeira da árvore…
Lá existe um grande balanço onde você estará com quem você mais quer. E se essa pessoa não quer estar com você, imagine a mim: como seu amigo te dando carinho… Assim como você eu também sinto falta disso, vamos morar juntos? No nosso novo mundo!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Suicídio Planejado



C


omunico aqui, a minha morte.

Ela será realizada em um quarto pouco iluminado.

Haverá um bilhete longo, pois sempre que escrevo acabo exagerando.

O bilhete vai falar basicamente das coisas que vivi: da minha angústia, dos meus amores, das tentativas inúteis de mudar, do meu fracasso como pessoa, da carência, da fragilidade, entre outras coisas vai falar de tudo que eu sou e porque cheguei a me matar

Também terá uma parte com pedido de desculpas aos meus pais e parentes Sabe como é... pra não dizerem que fui egoísta depois Sei que poucos vão entender o real motivo, pois poucos sabem as verdadeiras razões de um suicida

Pois bem, estes que entendem de certo são as pessoas mais queridas por mim. A eles um beijo especial e um forte abraço, eu juro que tentei, mas não foi possível. Acho que um dia vocês vão me entender

Voltando a minha morte, ela será realizada num quarto pouco iluminado, a luz virá de um pequeno abajur do lado direito da cama. Eu o uso para ler a noite,  e é o que eu estarei fazendo antes da morte vir me buscar

Do lado direito também haverá um vidro com remédios, uma corda, uma sacola plástica e um estilete. Terei várias opções, mas por fim escolherei o estilete, pois as lâminas sempre me seduziram.

É bem verdade que eu vou pensar em desistir inúmeras vezes, mas ao lembrar da vida infeliz e fracassada que terei pela frente, a morte será o menor dos males A morte irá me envolver com seus braços, e juntas dançaremos uma valsa leve e sádica, na qual verei todos os momentos felizes que tive durante toda minha vida

Ela será boa comigo e me levará pairando no ar para visitar aqueles que amo, e me permitirá abraçá-los bem forte, mesmo que eles não sintam.

Ao meu amor, olharei no profundo dos seus olhos e direi o quanto o amo, e o quanto desejo a sua felicidade, é fato que você não verá e nem me ouvirá, mas sua alma vai ver a minha pelos seus olhos, e no seu íntimo você perceberá a minha falta.

Bem verdade que nada adiantará quando esse dia chegar, sei que muitos chorarão de verdade, e a estes eu desejo profundamente o conforto. Aos falsos, desejo que sejam felizes e que jamais passem pelo que eu passei.

Anuncio que minha morte será realizada num quarto pouco iluminado, a data ainda não está marcada, mas peço humildemente que quando este dia chegar; que vocês possam ir ao meu velório e ao meu enterro, e eu estarei lá sorrindo e desejando a felicidade de todos...


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sob o olhar do cão


Acordou no meio da noite com seu cachorro latindo, pedindo por comida e atenção. “Maldito cão!" foi o que passou pela cabeça dela enquanto se levantava e procurava pelos chinelos em meio à escuridão. Ultimamente seu cachorro havia lhe enchido a paciência muito mais do que quando jovem. Agora velho e cego, muito de sua alegria se esvaira; embora continuasse dócil e amável como sempre fora, não tinha mais o hábito de pular e sair correndo toda vez que ela entrava em seu quintal.
Agora passava o dia inteiro sentado em frente ao batente da porta que dava acesso ao seu lar, implorando por qualquer coisa que o distraísse de sua velhice e da inevitabilidade da morte. Ellie abriu o armário da cozinha e retirou um saco de pão velho e amassado. Repartiu o pão em pequenos pedaços mecanicamente, um ritual ao qual já estava acostumada. Olhou para o relógio do micro-ondas enquanto jogava os pedaços em uma tigela e ele lhe mostrou que eram três e trinta e três da manhã. “Droga! Devia esganar esse desgraçado!" foi o seu pensamento antes de abrir a porta.
O luar iluminava o quintal com sua pálida luz azulada, como se houvesse uma gigantesca bola de neon celestial. Ellie esperava ver seu cachorro em seu lugar usual, logo em frente à porta, onde ela até havia colocado uma almofada, mas ele não estava lá. Ela vasculhou o quintal com o olhar e descobriu seu cachorro sentado ereto no centro, com o rosto virado para o canto oposto. Mesmo com a visão parcialmente nublada pelo sono Ellie percebeu que aquela não era uma posição normal para qualquer animal, muito menos para um cão velho. Era… reta demais, humana demais. Ele também mal se mexia, parecia até que não respirava, mas naquela semi-escuridão ela concluiu que seria difícil enxergar qualquer movimento de seu corpo.
Mesmo assim, era um comportamento anormal que ele estava apresentando. Ellie deu dois passinhos inseguros e timidamente disse: – Charles…? Trouxe um lanchinho para você. A princípio ele não reagiu, mas depois de um tempo ele lentamente virou o corpo. Charles estava com uma expressão estranha, apática, que mesmo cego ela nunca havia visto ele ter. Parecia que não estava realmente ali, que estava em algum tipo de transe. Ele só virou metade do corpo e parou todo retorcido em uma posição que não tinha como ser confortável. Então ele lentamente levantou a cabeça e olhou para ela.
Ellie não sabia como, mas tinha certeza que o olhar cego de Charles estava fixo no rosto dela. E depois ele… sorriu. Não era bem um sorriso; ele simplesmente colocou a língua para fora, como todo cão faz. Mas Ellie tinha certeza de que ele estava sorrindo e olhando para ela, quase como se soubesse de alguma coisa. Subitamente, Ellie ficou assustada e largou a tigela no chão enquanto voltava para dentro de casa. Trancou bem a porta que dava acesso ao quintal e voltou para cama. "Está sendo tola! Não há nada de errado com ele!” foi o que ela repetidamente se forçou a pensar, mas o sono não voltava.
A imagem de seu cachorro negro sorrindo com aqueles olhos leitosos voltados para ela estava queimada em sua mente e ela não conseguia ver mais nada.. Só foi ficar tranquila mais ou menos uma hora depois, quando ouviu o som de Charles mastigando o pão. "Está tudo bem, ele só estava com fome” foi seu último pensamento antes de adormecer profundamente.

******

Na manhã seguinte Ellie acordou se sentindo muito mais calma, apesar do cansaço. Tinha certeza de que estava tudo bem com seu cachorro; ele só estava passando por uma fase difícil. Ela foi até o quintal para retirar a tigela de pão e talvez brincar um pouco com ele.
Chegando lá, novamente ele não estava em seu lugar de costume. A tigela continuava onde ela a havia deixado, mas não conseguia ver Charles em parte alguma. “Ele deve estar em algum lugar nos fundos, se protegendo do sol”. Continuou a procurar por todos os cantos enquanto pegava a tigela. Foi então que uma súbita e aguda dor subiu pela sua mão, tão repentina que a fez largar a tigela, que se espatifou no chão. Ellie olhou para o local dolorido e viu um inchaço começando a se formar ao redor de um minúsculo ponto preto em sua mão. Então olhou para a tigela quebrada e viu centenas de formigas correndo desesperadas ao redor dos cacos e dos restos de pão. “Mas… ontem eu tenho certeza que o ouvi mastigando…”
Houve um único latido vindo lá do fundo. Lá, Charles estava nas sombras, quase impossível de se ver a não ser pelo branco dos olhos. Ele arfava ruidosamente, e Ellie podia ouvir a saliva pingando de sua língua. Novamente, aquela sensação de estar sendo observada pelo seu cão cego se apoderou dela. Ela começou a se sentir nauseada e quis ir embora. O arfar dele parecia muito com uma risada e os olhos… Bem, estavam muito brilhantes. Muito mais do que ela se recordava. Antes de ela fechar a porta atrás de si, Charles latiu mais duas vezes, uma logo atrás da outra, como se estivesse enviando um “tchau, tchau”.
Ellie não visitou Charles novamente pelo resto do dia. No dia seguinte, antes de ir trabalhar, ela deixou um pouco de comida ao lado da porta, mas não o viu em parte alguma. Notou, porém, que havia chumaços de pelo aqui e ali. “Deveria levá-lo ao veterinário. Talvez ele esteja com alguma doença". O trabalho exigia que ela se concentrasse de tal maneira que a fez esquecer tudo sobre seu cachorro. Quando voltou para casa no final da tarde, Ellie já não pensava mais no estranho comportamento de Charles. – Ellie? Ela levou um susto quando ouviu alguém lhe chamando por trás, mas era apenas seu vizinho, Edu. Ele estava com uma cara bastante consternada. – Nossa Edu, você me assustou! O que foi? O que aconteceu? – Ellie, você viu o Tomi?
Ele sumiu de casa já faz quase dois dias. – Ah, desculpe, Edu, mas não o vi não. Ele não costuma sair de casa de vez em quando? – Sim, mas não por tanto tempo. Se você o vir, liga direto para esse número, ok? Ele estendeu uma folha de papel com uma foto impressa do gato preto e um número de celular. Embaixo da foto estava escrito: "Você viu esse gato? Favor ligar para o número abaixo caso o tenha avistado”. – Pode deixar Ed. Boa sorte nas buscas. – Brigado. Enquanto Edu saía para interrogar os outros vizinhos, o namorado de Ellie, Marcos, chegou. Ele estacionou seu carro vermelho em frente à casa dela e desceu. – Ei querida, como está? – ele perguntou depois de um breve beijo. – Mais ou menos.
Hoje foi um dia estressante. Importa-se de a gente pedir alguma coisa ao invés de cozinhar? – Não, não, sem problema. A noite transcorreu normal. Eles comeram comida chinesa e assistiram comédias bobas na TV. Charles também voltara a ser o que era antes. Até mesmo voltou ao seu lugar especial em frente ao batente da porta. Ellie então pode relaxar e ter um pouco de paz. Quando era quase meia-noite, os dois subiram para se deitar.

****** 

Enquanto Ellie e Marcos faziam amor, Charles começou a choramingar. A principio isso não a incomodou, mas o ganido foi ficando mais e mais alto até que ela não conseguiu mais aguentar. 
- Marcos, sai, eu tenho que ver o que há de errado com o Charles. 
- Ele só quer comida, El, você sabe disso- Ele disse enquanto arfava. 
- Mas eu tenho que ver assim mesmo. Depois a gente termina, Marcos. Agora sai, por favor. 
Com um bufo, Marcos saiu de cima dela. Ellie colocou um roupão por cima do corpo e foi até o quintal. Charles novamente estava no centro do quintal, mas desta vez estava inquieto. Ele andava para lá e para cá em um eterno “8” e a cada volta soltava um choramingo agudo. Assim que ela saiu da casa, porém, ele parou de ganir e começou a rosnar. Eram rosnados curtos mas que iam aumentando de intensidade. Quase como se ele fosse gritar a qualquer momento. Ellie não conseguia fazer nada, estava hipnotizada pelo andar de seu cão. Charles parou no meio de uma volta e a encarou. 
            
Novamente aquele olhar cego, novamente aquele sorriso.  Ellie não conseguia ver mais nada. A imagem de seu cão sorridente ocupava quase tudo em sua mente. Teve uma hora que ela pensou ter ouvido “Meu bem? O que aconteceu…?” mas logo a imagem de Charles era tudo o que importava. Seu sorriso era tudo o que importava. Então ela acordou.
Estava deitada sozinha no quarto, ainda de roupão e meio molhada de alguma coisa pastosa. O quarto estava escuro, de modo que ela não conseguia ver o que era aquela coisa. Cheirou-a e sentiu o cheiro de salíva canina, o que lhe deu certo alívio, apesar de não se lembrar de ter brincado com Charles. Ela nem sequer se lembrava de como havia chegado alí. Chamou por Marcos, mas não ouviu resposta. “Ele deve ter ido para casa depois que eu dormi”  pensou. Foi então que ouviu uma batida muito forte em sua porta da sala. Olhou pela janela do quarto e viu dois policiais parados em frente a sua casa, esperando impacientes que ela os atendesse. Ellie enrolou bem o roupão ao seu redor e abriu levemente a porta.
- Posso ajudá-los? – Senhora recebemos reclamações de gritos vindos dessa residência. A senhora mora sozinha aqui? Tem mais alguém na casa? perguntou um dos policiais com uma cara fechada e pouco amigável.
- Sim, moro sozinha aqui. Meu namorado Marcos veio essa noite mas já foi embora… 
Foi então que Ellie olhou para a rua e viu, bem ali em frente a sua casa. O carro de Marcos ainda estava lá. Os policiais se entreolharam frente a hesitação de Ellie, e o outro deles falou:
- Senhora, se não se importar, gostaríamos de dar uma olhada em sua casa… meu Deus!!  Enquanto falava o policial já abria a porta, permitindo um pouco da luz da rua iluminar Ellie. Ela se olhou e percebeu que o líquido pastoso que cobria metade do seu roupão e boa parte de seu corpo era sangue. Ellie entrou em desespero, mas não pode ir a lugar nenhum pois os guardas a prenderam ali mesmo. Ela tentou dizer alguma coisa, mas estava sem palavras. Não sabia de onde vinha aquele sangue, mas com certeza não era seu. Um dos policiais a jogou bruscamente no sofá, fazendo-a cair de bruços. O outro se aproximou de sua orelha e, com uma voz ameaçadora, perguntou:
- Muito bem, agora me diga, onde está esse seu namorado?
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Charles uivou. Um uivo sobrenatural, forte e penetrante, que imobilizou todos na sala. Nenhum cachorro normal deveria ser capaz de reproduzir tal som. Ellie levantou levemente a cabeça e olhou para a sala de jantar.
A porta que dava acesso ao quintal estava aberta. Charles estava novamente parado e ereto no centro. Seus olhos cegos estavam vidrados nela e o maior sorriso que ela já vira em um cão deformava o seu rosto.
Ela esqueceu de tudo. Os policiais, o sangue, nada mais importava. Só o que importava era o sorriso maníaco de Charles. Era tudo o que ela via e era tudo o que precisava. Quando afinal sua mente clareou, Ellie se viu deitada de costas no quintal, com dor em todos os membros do corpo, como se tivesse participado de uma luta. Haviam pedaços de tecido rasgado em sua mão esquerda, um pedaço de papel na mão direita e o luar brilhando forte no céu.
Ela se sentou e examinou o tecido. Parecia ser azul e, entre os pedaços, havia um distintivo. Olhando ao redor, viu várias tiras de tecido do mesmo tipo, todos empapados de sa...Então ouviu um latido curto, quase um espirro, bem atrás dela. Ellie se virou.
Charles estava sentado a meio metro dela. O sangue brilhava refletindo o luar em seu corpo e ao redor da mandíbula. Apenas os olhos não estavam sujos. O branco deles estava mais forte do que nunca. Eram lanternas de pura loucura irradiando de seu pequeno cão.
Ellie não teve forças para correr. Nem sequer teve forças para gritar quando ele avançou, a boca aberta e a baba escorrendo, em direção a sua garganta…

******

No dia seguinte a manchete de todos os jornais locais era: “CHACINA EM CASA NO SUBÚRBIO. MULHER ALIMENTAVA CACHORRO COM PARTES HUMANAS”. Logo abaixo da manchete havia uma foto de Charles, encontrada na mão direita do corpo de Ellie. Na foto, Charles estava sentado ereto, com os olhos brancos voltados para a câmera. Algumas pessoas que leram os jornais naquele dia poderiam jurar que Charles estava olhando para elas. E que estava sorrindo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

But I don't believe...


Depois de muitos anos... numa arrumação de natividade, encontro um bilhete teu; cometo o erro de abri-lo, de lê-lo...
Apenas para chorar.


Estou aqui.
Lembre-se de que eu me importo, que você se tornou extremamente especial.
Lembre-se de que não existe perigo em estar sozinho e que não adianta dar voltas ao mundo atrás da sua alma gêmea.
E não há nada que você possa fazer com relação a isso.
Lembre-se de que você deve se amar acima de tudo, que sua alegria passou a ser também a alegria de outros.
Lembre-se de não mudar por ninguém, de aguentar tudo de cabeça erguida e orgulho nos olhos...
Lembre-se de que nada e nem ninguém se compara a você.
Lembre-se de que o mundo vai ser sempre filho da puta e que vamos topar sempre com as pessoas erradas, mas temos sempre que ter coragem pra seguir em frente.
Lembre-se de não criar expectativas, mas ao mesmo tempo lembre-se de que se deixar levar pelo amor não tem preço.
Lembre-se de que quanto mais alto se voa, maior será a dor na queda.
Ignore todos os julgamentos porque, no fim, a dor você suporta sozinho.
Lembre-se que seu sorriso ilumina o mundo inteiro, e por esse motivo, lembre-se de sorrir agora.
E o tempo todo.
Ah, e mais uma coisa…
lembre-se que eu amo você. Sempre.


E me acabo agora em lágrimas, de saudade, de tristeza, de alegria, de frustração.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

*Letícia e Eu*


Fui amigo de uma garota chamada Letícia, nós éramos os melhores amigos na escola. Tinha um professor -de química-, todos nós adorávamos ele. Ele tinha um jeito de falar que encantava a todos, era a aula mais calma que tínhamos. Letícia era que um tanto apaixonada pelo professor Humberto, conversávamos muito sobre isso, riamos muito dessa coisa clichê "aluna-que-é-apaixonada-pelo-professor-que-nem-sabe-que-ela-existe", mas o professor Beto (era assim que ela gostava que o chamássemos  não era assim, ele conseguia dar uma atenção especial pra cada um de nós, os 30 alunos daquela turma bagunceira que dividia seu tempo entre idas à coordenação pedagógica, as aulas, a cantina e o pátio no intervalo, um dia o professor Beto disse à Letícia que precisava conversar com ela depois da aula. Letícia era a menina mais bonita e inteligente da turma, mas não percebeu... E nós ficamos zoando a menina dizendo que o Professor Beto ia se declarar pra ela...


Depois da aula, o professor drogou-a e a levou de carro pra um bairro distante, num terreno baldio, e estuprou Letícia violentamente. Com medo que ela contasse para alguém, ele a torturou por mais de duas horas, a estrangulou até a morte e a esquartejou, por fim enterrou os pedaços do corpo em sete buracos diferentes. O espírito de Letícia agora vaga por aquele terreno, assombrando os casais que por ventura se atrevam a entrar lá à noite. Agora que você leu a história de Letícia, te peço gentilmente para ajudar o espírito de Letícia a descansar em paz. Cace todos os estupradores do mundo, vigie-os, denuncie-os. Se você não fizer isso, Letícia irá te visitar, e fazer-lhe sentir a dor de ser torturado... Parece coisa de corrente, né  Mas deixa eu continuar...
No começo, nós não acreditávamos nisso, mas aí as coisas estranhas começaram: Luisa riu da história e disse que a culpa de Letícia ter sido estuprada era da própria Letícia, que se insinuava pro professor. No dia 18 de fevereiro seu corpo foi encontrado em pedaços no quintal da casa da namorada. O mesmo aconteceu com Amanda, encontrada estrupada e morta em casa, no próprio quarto, com portas e janelas trancadas por dentro. Nestes anos após a morte de Letícia, muita coisa estranha começou a acontecer na cidade. Muita gente morrendo de forma bizarra, e sempre tinha alguma ligação com o terreno, ou com Letícia.
Semana passada fui ao terreno baldio -nada conseguia ser construído ali, tentaram-se várias vezes, mas sempre ocorriam estranhos acidentes. Há um ano a prefeitura mandou mura-lo todo, mas no muro sempre aparecia um misterioso buraco, grande o suficiente para uma pessoa passar, até o dia que a prefeitura apenas colocou uma placa dizendo "Perigo. Afaste-se!".

Era uma noite de lua cheia e céu limpo, eu levava embaixo do braço um tabuleiro oui-ja que comprei num antiquário no centro, na biblioteca eu emprestara um livro sobre magia e o li até saber cada página de cor. Na outra mão uma sacola com outras coisas e meu caderno de anotações, onde eu anotara cada passo e palavra do Rito de Chamada.
Eu pretendia falar com Letícia, pedir que ela parasse com aquilo.


Entrei no terreno e senti um frio intenso cobrir todo o meu corpo 'ela está mesmo aqui' pensei. Fui até o meio do terreno -onde o jornal (que eu guardara desde o evento) dizia ter sido encontrada sua cabeça, com os olhos vazados, a língua cortada, ouvidos perfurados. A cena foi tão pavorosa que nenhum jornal da cidade publicou uma foto sequer.
Fiz de acordo com o manual: cavei uma pequena vala em círculo, derramei sal por toda ela, desenhei os símbolos com um galho verde virgem -recém tirado de uma roseira-brava que a família de Letícia mandara plantas daquele terreno em homenagem a filha -a única planta que viçava por ali. Nem um mato sequer crescia ali.
Coloquei a tábua oui-ja no centro do círculo, acendi os sete incensos, as quatro velas, comecei a recitar a evocação 

'Ego invocant te, spiritus sufferens, ad manifestandam vestra praesentia in loco isto iacet anima inlaqueaverunt'. 

Não sei como explicar, mas quando terminei a evocação, foi como se o silêncio da noite ficasse ainda mais profundo, quase sólido.
Alguns instantes depois, ouço vindo por de trás de mim uma voz rascada, como a voz pastosa de alguém que acabara de acordar dum sono pesado, profundo. 
"Estou aqui Ary. Eu sei porque me chamou. Eles tem que pagar."
Não me atrevi olhar pra trás, tinha medo de olhar o espírito da minha amiga. Continuei olhando a tábua oui-ja e meio que senti/ouvi um tipo farfalhar leve e percebi que ela estava à minha frente, do lado de fora do círculo protetor 'graças à Deus, isso funciona!' pensava nervoso enquanto suspirava... Finalmente falei 
"Lili, o Beto já foi preso. Pegou mais de 70 anos sem condicional. Ele provavelmente vai morrer na cadeia. Então..." o sangue pareceu gelar nas minhas veias quando ouvi aquela voz mofada, triste, dizer 
"Ele JÁ morreu, Ary. Porque você não me olha? Levanta o rosto!". Eu silenciosamente recitei 

'Creator universi dominum, mala res fragiles tueri. Quid mihi obest, non quod vultus ejus.'

 e ergui o olhar e então vi: era minha amiga, exatamente como eu me lembrava dela na última vez que a vi... Antes de tudo... Antes ''dele''. 
"Lili... Se foi você que pegou o pro... o Beto, porque ainda está por aqui?? Quer dizer, sei-lá! Se você já resolveu seu negócio pendente você não deveria ter atravessado, visto a luz o ou que quer que aconteça com os fantasmas quando eles quebram seus grilhões? Você está livre! Vá!" eu disse olhando dentro daquele olhos cor-de-amêndoa que eu tantas vezes vi rir e chorar e uma dorzinha aguda atravessou meu peito, me fazendo abaixar a cabeça levemente. O que vi me gelou o espírito e quase fechei meus olhos pra não continuar vendo aquilo: sobre a tábua oui-ja estava um triângulo de prata sólida polida, que eu deveria tocar com os dedos a cada recitação. Nele eu pude ver o reflexo de Letícia, mas o reflexo... Não era ela ali! Não como eu lembrava dela. Naquela imagem refletida eu via uma criatura com marcas de cortes profundos, onde vermes transitavam livremente entrando e saindo, via um maxilar quebrado, frouxamente pendurado pelos músculos rompidos, via buracos fundos donde escorria um líquido escuro e denso como óleo de motor, ali onde deveriam estar seus olhos. Segurando a vontade de gritar e fechar o olhos, ou virar a cabeça, respirei profunda e lentamente, me concentrei e recitei outro texto

 'Divinum angelicae potestates, invoco vos ad benigna lux entia, benignitatem, fortitudo et amoris, mihi tribuat, miserum me mortalis, omnia tua tutela contra impium dictitans malum, quod hoc mundo turbato qui subsannat vita quae data est a nascitur creatoris ipsius magistri vos mihi tantum et vagatur iam olim in vita moratus est. Custodi me!'. 

Tendo terminado a invocação, abri um sorriso que logo murchou em meus lábios ao ouvir a voz gutural, subterrânea, de Letícia dizer "Não posso partir Ary. O verme do Beto é apenas um entre vários outro monstros! E não é ele, nem minha vingança que me mantém aqui Ary. É o amor. O amor que aqui me agrilhoa.".

Muito lentamente, ainda com a cabeça baixa, comecei a desenhar os selos em minha palma-de-mão, com a primeira pena caída de uma ave de rapina. Argui: 
"Amor Lili?! Por amor você matou tanta gente que nunca te fez coisa alguma? Por amor você persegue a outros casais??". Nem bem terminei de falar e Letícia responde: 
"Sim. O amor que você sente por mim.". Foi ai que vento começou a soprar, apagando as velas e buscando desfazer o círculo de proteção e isso tudo reforçado pela voz de Letícia 
"E eu quero o meu beijo.". 

'Abhorret turbatus spiritu! Striga! Importantis strapae Amxalak vos et tenere profectum vestrum, protegens salutem meam, dans mihi transitum tutum ex hic.'. 

Vi uma luminescência rubra envolver totalmente Letícia, e no mesmo momento o vento parou, o frio cedeu um pouco. Juntei tudo que havia levado e corri pra fora daquele terreno.
"Eu te amei, Lili, mas você morreu. A vida continua. Você deve seguir adiante, em frente!" foi o que eu disse quando estava do outro lado do muro. Alguns dias depois em ocorrido, comecei a sentir calafrios pelo corpo quando estava sozinho, como se mãos congeladas me agarrassem.
Ante ontem tive um sonho onde Letícia aparecia me dizendo 
"Você não deveria ter me abandonado, Ary. Mas eu sei como resolver isto..." acordei entre tremores e suores frios. Por isso escrevo este relato. Sinto que hoje será meu último dia entre os vivos, e quis partilhar a história de Letícia e a minha. Se não tiverem mais notícias minhas, aos que me conhecem, me procurem em casa, atrás das portas trancadas...

José de Arymatéia da Silva

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

*Fico Triste*


Oi,
Escrevo esta carta, porque preciso falar com alguém sobre isso... E se é pra falar, que seja pra você!

Não sei se você vai dar importância, mas eu sinto tua falta.
Sei que você também sente de mim, mas às vezes sinto falta também de você dizer, demonstrar.

E fico triste...

Por que aí, parece que nunca será.
Não foi uma escolha racional me apaixonar por você, mas foi você que apareceu na hora que eu estava aberto pra novas tentativas.
Fui te conhecendo e, mesmo com os dissabores, raivas, aborrecimentos e etc. Comecei a amar o que você é. Não sei o que você quer ser, mas amo muito quem você é agora.

E mesmo que me fira em certos momentos, em horas incertas, ainda sigo te amando.

Ta um fim-de-tarde lindo e bucólico...
Queria que vc estivesse aqui comigo e isso, junto com a saudade, vão me entristecendo...

Agora tudo é banhado por uma suave luz laranja...

Tentei fotografar pra te mostrar, mas é um celular, não uma câmera...
Beijos, te amo!!

*frankj costa*

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

*L'oblit*


--É POSSÍVEL?!

Do interior duma casa antiga, com paredes nuas, de madeira, o grito parecia ter sido dado por uma alma que passasse por tormentos inimagináveis para qualquer mortal...

Dois homens, sentados à uma mesa que já conheceu dias melhores em sua existência tabular, cada um numa extremidade da pequena mesa: pratos amontoados, comida espalhada... baratas arrastando-se pelos cantos daquele cômodo que já há muito sofre com a incúria de seus ocupantes.

Subito um deles se levanta abre os braços e, olhando com mágoa para todo o lugar e para o outro homem a sua frente, fala numa voz dura, quase gutural, como se buscasse velar os sentimentos que os olhos já traíram:

--Construo isto aqui para o que? Para quem? Para ti?? Háh! Há muito que não demonstras qualquer interesse em minhas invencionices; minhas odisséias ordinárias, meus contos de sarjeta.

O outro homem, que premanecera sentado à mesa, olha com profunda tristeza para aquele a quem já amara um dia; mas que agora já não reconhece como seu Herói (como fora um dia):

--Não sou nenhum deus, ou se me pareço, não carrego comigo sua paciência... O que tínhamos desgastou-se! Não sei como, não sei porque... Mas já não nos fazemos mais bem, vivemos às turras. Brigamos por migalhas de pão!! Não sei se fui eu, se foste tu. Ou se simplesmente, acostumados já à presença um do outro, nos descuidados. Nos atiramos aos chacais do tempo, rotina e indiferença! NÃO SEI!!!!! Mas nossa situação já é insutentável. Peço de novo: me deixa ir! É melhor pra nós dois. Pra ti!

O homem de pé (alto, quase 2m de altura, de um amorenado na pele que certamente não vê o sol há muitos meses empalidecendo) riu de forma dura, deu a volta na mesa, aproximou-se do que estava sentado e sussurou, sibilante como uma serpente peçonheta:

--É este o deus que amei um dia(?): uma presença defunta, um fantasma, como aquele rei do Hamlet, a me pedir justiça... Liberdade!

Mordendo o lábio inferior, ainda mais pálido que o resto de sua pele; aquele pequeno homem alí sentado, indefeso... Respirou fundo levantou o rosto olhando o primeiro profundamente nos olhos:

--Eu preparei todas as mentiras... Eu fraudei o que não deveria ter sido fraudado!! Me arrependo! Mas não menti quando te amei!
Em momento algum menti ao estar sob as cobertas contigo. Jamais te menti isto. Sabias! Podias ver!! Menti sobre quem eu era, sobre minha família. Mas não sobre o que sentia! Deixa-me ir!

O primeiro homem se afasta, anda em torno da mesa. olha o outro que sentado ali, parecia tão pequeno... Tão inofensivo. "NÂO!!" pensou ele de súbito "Não vou me deixar amolecer!!". Riu um pouco e disse:

--Eu trago agora no coração uma floresta em chamas, nos olhos apenas dor... Ele é interrompido pelo segundo homem que chorando copiosamente diz que já passou da hora de se separarem! Continuar naquilo destruíria a ambos. Ele próprio já fora, não queria que seu amado também fosse.

Neste momento o primeiro homem, deixa cair uma lágrima.
Novamente se aproxima da mesa, agora empunhando uma esponja que pegara na pia quando passou próximo.

--Fuja de mim, então. Queres partir, e já não consigo mais te ver neste estado deplorável. Eis a verdade: Os mortos temem somente o esquecimento... Mas tu já não o teme mais.
Desejas o oblívio tanto quanto - ou mais - que eu te desejo aqui. Mas tens razão: Não faz mais sentido continuarmos aqui. Não te posso mais ferir. A não ser quando firo a mim próprio. Portanto: parte! Eu te liberto agora.

E com a esponja, aquele homem de quase dois metros de altura, mas magro como se não comesse há muitos dias, começou a apagar um intrincado desenho feito sobre a  mesa. Que jazia escondido entre os pratos e restos de comida.
Enquanto o desenho era desfeito, o homem que permanecia sentado sorriu ternamente, disse "eu te amo" apenas com os lábios, sem emitir som audível e começou a desaparecer.
Contudo, antes que desaparecesse duma vez, o primeiro homem o olhou nos olhos (que agora malmente eram uma sombra de olhos) e disse:

--Eu sei! Também te amo.

E com estas últimas palavras, o segundo homem sorriu ainda mais e desapareceu, enquanto a luz dum novo dia começava a entrar pelas frestas das tábuas daquela casa antiga.

*frankj costa*