quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Abismal: a Insanidade Desperta


Dos confins da existência, entidade ancestral,
Rompe o véu da realidade, loucura mortal.
Trazendo aos mortais a insanidade total.

Olhos profundos que refletem o abismo,
Presença sombria que faz tremer o íntimo.
Enlouquece mentes frágeis, destinos perdidos.

Em seu toque gélido, o desespero se instaura,
A sanidade se esvai, a razão se desfigura.

Desvenda segredos ocultos, mistérios antigos,
Mas sucumbem ao caos, tomento infinito.

Nas noites sombrias, a entidade vagueia,
Semeando medo e desespero na atmosfera.
Os mortais clamam por paz, por uma saída,

Ecoam gritos de angústia pelos corredores,
Enquanto ela ri, alimentando-se das dores.

Ó entidade ancestral, ser enigmático,
Teu poder é uma incógnita, um mistério oculto.
A loucura que trazes é teu legado imortal,
E a humanidade sucumbe ao teu domínio abismal.

terça-feira, 20 de junho de 2023

**O travesseiro**



Na cama, há quatro travesseiros, diferentes cores e tamanhos.

No primeiro, há uma coroa de flores secas e uma carta amarelada.
No segundo, há um livro aberto e uma pena.

No terceiro, há um colar de pérolas e um anel.
No quarto, há um mapa do mundo e uma bússola.

No centro da cama, pessoas abraçadas, cobertas por um lençol branco.
Dormem em profundidade, tranquilamente, com sorrisos nos semblantes.

Cabelos loiros e olhos azuis. Usa uma túnica verde e um manto marrom.

Cabelos pretos e olhos verdes. Usa uma túnica preta e um manto cinza.

Na parede atrás da cama, um quadro com a pintura de uma pessoa. Cabelos castanhos e olhos castanhos. Usa uma túnica vermelha e um manto azul.
No chão ao lado da cama, há uma espada e um escudo com um brasão desgastado, irreconhecível.

 Eis agora um viajante misterioso, que chegou ao castelo na noite anterior, transmitindo uma sensação de paz, amor e felicidade.

sábado, 3 de junho de 2023

O Despertar de Belka


Belka latia de medo dentro da cápsula espacial. A missão fora um fracasso. O foguete se desviou da órbita e se aproximava de um buraco negro. De repente a nave começa a vibrar. Belka sentiu uma estranha sensação de leveza e uma luz brilhante à frente do pequeno módulo. Ela atravessou um portal e chegou a um mundo desconhecido. Lá, ela encontrou outros animais que falavam e pensavam como ela. Eles a acolheram e lhe ensinaram sobre sua cultura e história. Belka descobriu que era uma cosmonauta de um universo paralelo, onde os humanos eram dominantes. Ela se sentiu livre e feliz pela primeira vez em sua vida. Ela tinha encontrado seu lar.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Boca Rubra



O coração perfurado
A boca rubra,
Sangue... Saliva morna
Mergulhe em mim,
Beba meu corpo fresco

Gostos e sensações
Olhos enluarados dos teus
Um sol amanhece que já não mais
clareia a escuridão.

O coração perfurado
A boca rubra,
Sangue... Saliva morna
Infiltre-se nas delicadezas de meu ser,
Rasure meus confortos e permaneça...


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Oracular

(Mozak)



A Luz desce.
A Luz detém-se no Limiar.

Desde aí, em profundidade com o Ser.
Fala, guia, dá à todas as sombras seu devido nome.

Para isso lembra: o toda matéria se acabará, deixa tua mente quieta, cala tua voz e ouve.
Só assim teu anseio de paz se tornará verdade.

É quando a Paz Final te receberá no silêncio infinito...



*Frankj Costa*

sábado, 20 de agosto de 2016

Na pequena caixa


Na minha pequena e velha caixa de lata, estava escondido um botão quebrado do meu casaquinho de infância.

Lembrando-me que o tempo é de dupla natureza - mesmo que ninguém atente - e então sou transportado para aquele momento embora eu permaneça aqui... como eu gostaria de ficar lá. 

Uma velha carta dobrada de baixo das pilhas de roupas no meu armário me leva para toda a glória escrita nela: lugares visitados e amados - o espaço não está consolidado. 

As velhas tábuas do assoalho da casa onde cresci me dão um vislumbre de como a vida era suposta ser - como sempre fazem as crianças em seus sonhos pueris - a vida é uma constante, apesar das mudanças. 

A fotografia desbotada de um feliz momento de um passado agora cada vez mais distante, percebo como lembranças são estranha: bonitas e tristes ao mesmo tempo - lembrando-me as contradições de querer governar nosso destino sempre. 

Em tal cativeiro de tempo, espaço, vida e destino, eu me laço em um feitiço mágico: Recordar. 

Que me liga a um contentamento para sempre de tudo o que é - me dizendo que nada mais importa, mas é.

Não importa o que. E então isto se torna tudo para mim. Todos os momentos, em todos os lugares, tudo se torna isto.
E eu percebo quem sou: Eu sou ele.













quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Maha Alauyama

    A madrugada estava alta. Mais alto ainda estava eu: duas garrafas de gin, uma de vinho; até a meia garrafa de malte escocês (esquecida por alguém no último réveillon) entrou na ciranda.

    Com minha última dose de malte - servida chorosa e abundantemente - sentei à janela com um cigarro acesso e a mente fervilhando; pensamentos desconexos em recordações fragmentárias.
    Uma memória ignota que teima em recontar de si para si a própria história: editada, revista e revisada, a cada novo ocaso.

    O vento alisa meu rosto como tépidas mãos desprovidas de quaisquer anseios. Ao longe ouço o ribombar dum trovão; embora eu não houvesse visto o seu relâmpago... Pouco depois uma fina e gélida chuva começa a entrar pela janela, completando meu copo de malte, me deixando de corpo lavado, mente embotada; imersa em plena solidão.
    Apaga-se o encharcado cigarro, que esquecido pendia em minha mão. Do outro lado da rua, o vento traz-me uma canção...

“...
Now you say you’re sorry,
For bein’ so untrue
Well, you can cry me a river,
cry me a river
I cried a river over you
...

    E a música derruba minhas muralhas, abre a represa de minha’lma e vejo-me impotente, chorando sob a chuva fria, à janela de uma casa vazia e gélida. Pondo-me de pé, me debruço sobre o parapeito, meus olhos mergulhando no rio de luzes dos carros passantes na via expressa; metros abaixo.
    No armário do banheiro ainda resta um vidro de MAPEZAIDO (do tempo em que vivias comigo). Deito uns comprimidos dentro do copo, olho-os enquanto se desmancham no malte – agora completado com chuva e bourbon -, emprestando uma coloração banco-leitosa ao rubor da bebida e uma textura arenosa ao seu sabor.

    No horizonte vejo o sol surgindo por entre as nuvens; o céu vermelho-alaranjado, como a bebida em minhas mãos.
    A chuva arrefece e sinto o cheiro da manhã invadir a casa, me invadindo junto.
    Sinto as pálpebras pesando a cada gole dado em meu Bourbon. Some minha percepção de mim, assim como some o sol do horizonte no cerrar pétreo de meus olhos.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Amens Ignocens

No fogo de minha loucura, anseio por respostas que jamais virão. Olho para coisas que jamais se viram. Chamo por aqueles que jamais vieram. Convido aos que jamais verão. Encaro toscas faces refletidas de mim, num espelho partido que jamais consertarão. Ouço acordes de um Concerto sem os que o poderiam executar. Extenuo-me na estase de emoções que já não sinto mais. Então, deito-me sobre a relva orvalhada esperando o sono que não vem. Porque, deitado, Oneiros e comitiva simplesmente não me veem. Pois que este é o momento que partilho a taça com Platão e Sócrates; e sabendo-me não-sabedor de tudo, fecho-me.
 No fogo de minha loucura, anseio por respostas que jamais virão. Olho para coisas que jamais se viram. Chamo por aqueles que jamais vieram. Convido aos que jamais verão. Encaro toscas faces refletidas de mim, num espelho partido que jamais consertarão. Ouço acordes de um Concerto sem os que o poderiam executar. Extenuo-me na estase de emoções que já não sinto mais. Então, deito-me sobre a relva orvalhada esperando o sono que não vem. Porque, deitado, Oneiros e comitiva simplesmente não me veem. Pois que este é o momento que partilho a taça com Platão e Sócrates; e sabendo-me não-sabedor de tudo, fecho-me.
 No fogo de minha loucura, anseio por respostas que jamais virão. Olho para coisas que jamais se viram. Chamo por aqueles que jamais vieram. Convido aos que jamais verão. Encaro toscas faces refletidas de mim, num espelho partido que jamais consertarão. Ouço acordes de um Concerto sem os que o poderiam executar. Extenuo-me na estase de emoções que já não sinto mais. Então, deito-me sobre a relva orvalhada esperando o sono que não vem. Porque, deitado, Oneiros e comitiva simplesmente não me veem. Pois que este é o momento que partilho a taça com Platão e Sócrates; e sabendo-me não-sabedor de tudo, fecho-me.
No fogo de minha loucura, anseio por respostas que jamais virão. Olho para coisas que jamais se viram. Chamo por aqueles que jamais vieram. Convido aos que jamais verão. Encaro toscas faces refletidas de mim, num espelho partido que jamais consertarão. Ouço acordes de um Concerto sem os que o poderiam executar. Extenuo-me na estase de emoções que já não sinto mais. Então, deito-me sobre a relva orvalhada esperando o sono que não vem. Porque, deitado, Oneiros e comitiva simplesmente não me veem. Pois que este é o momento que partilho a taça com Platão e Sócrates; e sabendo-me não-sabedor de tudo, fecho-me.
No fogo de minha loucura, anseio por respostas que jamais virão. Olho para coisas que jamais se viram. Chamo por aqueles que jamais vieram. Convido aos que jamais verão. Encaro toscas faces refletidas de mim, num espelho partido que jamais consertarão. Ouço acordes de um Concerto sem os que o poderiam executar. Extenuo-me na estase de emoções que já não sinto mais. Então, deito-me sobre a relva orvalhada esperando o sono que não vem. Porque, deitado, Oneiros e comitiva simplesmente não me veem. Pois que este é o momento que partilho a taça com Platão e Sócrates; e sabendo-me não-sabedor de tudo, fecho-me.

O Reino das Sombras

Molome

No profundo no Reino das Sombras, busca-se pela luz que nunca vem, a paz que jamais chega...
Pois no Reino das Sombras, tudo se revela no limiar do crepúsculo.

E, das profundezas abissais a Escuridão uníssona encara a Treva habitante de teu interior, a despeito de tua fuga...
No limiar do crepúsculo a Luz preenche os espaços da filosofia vazia da alma perdida em dúvidas nascidas das certezas falaciosas.

No Reino das Sombras a Luz irrompe. A tudo querendo iluminar, a tudo querendo devorar... Propagando a mentira que afirma ser a luz, a verdade... E o terror se instaura no Reino das Sombras...
Observa-se o passar do Tempo, como algo advindo de um passado longínquo, hermético; dividido entre a Luz e a Escuridão, entre o Agora e o Nunca. À espera do que jamais chegara a ser mais do que um sonho vão e tolo. Assim permanece-se... Assim jaz.

E assim prossegue a luz na sua estéril tentativa de vencer as trevas. Ignorando ser ela -a luz- filha desta mesma escuridão que tão ferrenhamente agora combate.
Com a luz invadindo o Reino das Sombras, mudanças tem início. E vida inconfessa começa a surgir onde antes apenas a esterilidade existia...

Mas mesmo esta luz incipiente é natimorta. Pois nada perdura no Reino das Sombras... A iridescência finda, o brilho esmaece, as convicções esmorecem. Sim... Ao incauto viajante fica o parvo alerta: quando estiver impressionado pela luz, lembre-se que ela partirá, e apenas a escuridão permanecerá. Esta é a real essência do Reino das Sombras.
No Reino das Sombras, as criaturas mais estranhas existem, vivendo no tênue limiar entre a Luz e Escuridão. Sem jamais conseguir ocultar a Treva... Que é sua verdadeira natureza, sua real substância!!

E os viventes do Reinos das Sombras seguem cegos e ignorantes do que sucede em seu derredor. Desconhecendo a horrenda batalha entre Treva e Luz que ocorre na periferia do seu parvo existir. Assim prosseguem, ignorantes de suas prisões.
Em sua suprema angústia, a Luz convulsiona; buscando resistir a ser devorada pela trevosidade circundante. Logrará - a Luz - passar incólume às investidas da Treva Eterna?

E, na contenda entre Luz e Treva, surge o Tédio. Deformando a Existência, consumindo a Essência.
Reduzindo tudo a Nada. Talvez a menos que isso...
E todos seguem em suas aflições, dilacerados em julgamentos vãos; a Luz corroendo a tudo, permanecendo ignorante de sua própria Escuridão. Em meio a tudo, ansiando pela autoextinção...

E, consumidos em suas incertezas, os viventes no Reino das Sombras enganam-se com o próximo cigarro, o trago seguinte; o gole dado com sofreguidão no Néctar do Esquecimento. Almejando reinventarem-se um sua busca angustiosa...
Mas a Luz irrompe novamente, rasgando a Treva e tudo quanto existe no Reino das Sombras sofre sua agressão. Tudo queima, todos ardem. E a Treva convulsiona.

A vida polula por todos os rincões do Reino das Sombras. Diminuta, mas nem por isso menos significante...
Formas de Treva e Escuridão, Vazio e Nulidade movem-se em meio a Luz. Entes de consciência embotada amontoam-se nas frestas e frisos. E por todo lado a Vida vareja e agoniza, arrancada de seu útero escuro.

A Luz rasga tudo. As cores desvelam-se em sua pálida profusão. Então a ilusão de Vida extrusa das Trevas; e os combalidos habitantes do Reino das Sombras, por uma primeira vez em milênios, ousam crer em Esperança. Esquecendo ser ela prisioneira de, Pandora e sua fatídica caixa: maldição de Deuses arcaicos, ciumentos e mesquinhos, que por húbrys, apartaram-se para outros rincões do Cosmo.

A Luz (e seu agudo punhal) rasgam as carnes daqueles que vivem em plena Escuridão do Reino das Sombras...
Corta fundo, revelando vísceras, ossos, músculos.
A dor lembrando-os ainda estarem vivos. E sempre, e mais uma vez, os corpos desfazem-se em um jorro líquido rubro, pastoso e agridoce; levando os viventes aos estertores... Ao hálito derradeiro, ao limite da existência.

E tudo fende, rompe, sangra e morre...

E novas formas brotam da Escuridão, repopulando o devastado Reino das Sombras...

Mas a Luz não rende-se. E volta a expandir, queimando e destruindo tudo a que toca. Rasgando o reconfortante véu da ilusão costumeira. Destecendo realidades pré-manufaturadas, desfazendo toda segura noção de certeza.
E tudo no Reino das Sombras geme, agoniza; buscando fugir da Luz para o conforto da Treva, terna, fria, macia, acolhedora. Como um cadáver que busca retornar ao obscuro ventre da Terra...

E um novo ciclo tem início, contendas de batalhas até a chegada do Não-Tempo do Fim de Todas as Coisas.

*frankj costa*

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Kaine & Lílliam


http://caim-thomas.deviantart.com/


Em um balcão de bar há um homem -solitário, de olhos baixos, bebendo seu whisk de forma intencionalmente lenta.
Ele observa as pessoas em sua volta, mas sem prestar atenção especificamente a coisa algum; sua mente um frenesi de números, porcentagens, algoritmos financeiros; e sua esposa - Marta.
Sempre a voz de Marta: queixando-se do "alto custo de vida", queixando-se de que o marido mesmo sendo sócio-proprietário de uma firma consagrada de contabilidade, não para de "chorar pobreza". Sempre aquela voz rouquenta dizendo: "Mas Cæsar, você NUNCA tem dinheiro p'ra nada! Até parece - se-lá - um daqueles sem-tetos que a gente vê no notíciário".
No começo, Cæsar ainda tentava explicar que fundos de investimento de longo prazo não eram para serem remexidos a cada vez que sua esposa quisesse um vestido Dior recém-lançado. E Marta se desesperava e dizia "o que direi para minhas ammigas? O que Cæsar?!".
E finalmente aconteceu: Marta envolveu-se com outro homem, alguma espécie de Barão do Petróleo do Oriente Médio, em menos de duas semanas ela entrou com uma ação de divórcio. E, para atormentar a vida de Cæsar, ela queria TUDO. E Cæsar conversava com seus advogados, negociando; enfim fazendo tudo o que fosse possível para que Marta não o levasse à bancarrota.

Então aquilo: aquele Congresso de Contabilidade, um mês em outro estado - sozinho, sem Marta para levá-lo à loucura com suas eternas lamuriações.

Cæsar estava absorto em seus pensamentos, em suas aflições, e quase não deu por conta de uma mulher que sentou-se a seu lado no balcão do bar do hotel e lhe falava alguma coisa.

-- Desculpe, mas você falava comigo? Perguntou Cæsar, enquanto tomava mais um gole de seu whisk e fazia uma careta.

-- Oh, bem, agora já não adianta - disse a mulher - eu estava dizendo que se você demorasse mais, seu malte se tornaria um soro com esse tanto de gelo que derretia no copo. Mas você não me ouviu e agora já descobriu da pior forma do que eu falava. E a mulher terminou sua frase com um sorriso encantador, enquanto virava levemente a cabeça de lado, olhando para Cæsar.

-- Bem, realmente agora é tarde para qualquer aviso.
Concordara Cæsar, enquanto olhava objetivamente para aquela mulher: ela não parecia ter mais que 35 anos, cabelos longos, negros, brilhantes de de aparencia sedosa, presos num coque no alto da cabeça, olhos incrivelmente penetrantes, verdes, parecendo duas jades incrustadas naquele rosto de traços fortes. Sobrancelhas finas, mas que não pareciam de forma alguma desenhadas à lápis ou mesmo à pinça. Orelhas pequenas, com brincos de jaspe vermelho-sange, um nariz afilado, uma testa alta com uma perfeita linha de cabelo. E a pele? Aquela alva pele de brilho tão suave; uma textura como de pura seda quando seu braço resvalou no dele.

Ela sorriu mais uma vez e virou-se para o rapaz do bar pedindo um Cheren Pin’on. Cæsar estranha a escolha mas sorri e resolve puxar conversa:

-- Moça, você não acha que um Cheren pode ser muito forte pra você?
-- Moço, você estava bebendo chá de whisk e vai implicar com meu Cheren? Retrucou ela, rindo em seguida quando percebeu que Cæsar havia ficado sem jeito com sua resposta.

-- Ok, babie, meu nome é Lílliam. Qual o seu?
-- Cê.. Cé... Cæsar (gagejou Cæsar, entre surpreso e divertido com a veemência daquela mulher).

-- Certo. Cæser, como o Imperador Romano? UAL! Um nome forte para um homem bonito. disse Lílliam com um sorriso úmido nos lábios carnudos de um vermelho rubi intenso.

Ele sorriu, sentindo-se mais confiante e pediu mais um whisk (agora com menos gelo) ao atendente de bar, Lílliam pegou seu copo de Cheren Pin'on e seguiram para uma mesa nos fundos do bar do Hotel Turkija-Inn

Conversaram animadamente e Cæsar ficou surpreso ao descobrir que Lílliam também era contadora e estava participando do mesmo congresso que ele, apenas hospedada em outro hotel a poucos quarteirões de distância.

-- Apesar de amanhã ser o último dia do Congresso, pretendo ficar aqui um pouco mais para visitar um amigo com quem não falo a vários anos. Dizia Lílliam

-- "Amigo"? Sei... Mas o pequeno ataque de ciúme de Cæsar foi abruptamente cortado quando, casualmente olhou na direção da porta do bar e viu Marta entrando acompanhada por um homem jovem (até mesmo mais jovem que o próprio Cæsar), alto, com uma pele lustrosa, de uma coloração marrom tanado; um cabelo luxuriante e impactantes olhos verdes; praticamente tão verdes quanto os de Lílliam.
Quando Cæsar ensaiou levantar-se teve seu braço agarrado por Lílliam que disse:

-- Então aquela é a tal Marta de quem você falava? Certo ela está aqui e está acompanhada por aquele jovenzinho; e você pensa em fazer o quê?? Levantar e ir lá fazer o quê?

-- Eu não sei. Mas eu me recuso a ficar aqui e deixar que ela me faça de imbecil desfilando com aquele garotão-de-praia; me fazendo passar atestado de corno!! Não! De jeito nenhum! Vou lá tirar satisfações e vai ser agora!

--"atestado de... corno"? repetiu Lílliam e explodiu numa gargalhada que deixou Cæsar atônito e sem saber o que dizer.
-- Querido, querido, QUE-RI-DO! Começou Lílliam: você está a CENTENAS de quilômetros da cidade de vocês. Quantos conhecidos você encontrou neste bar? Ou no Congresso desde que ele começou?

-- Nenhum, ninguém. Respondeu Cæsar, olhando para Lílliam como se ela estivesse falando de alguma coisa mágica. SIM! Acho que você tem razão garota! Não tem como ela me envergonhar aqui, porque não há aqui ninguém -fora você- que saiba que somos casados; ou mesmo que estamos nos divorciando.

-- Exatamente gatinho. Então você ir lá "tirar satisfação" só iria pegar mal pra você mesmo; e talvez você ainda levasse uma surra do garoto-dourado alí; você reparou no tamanho do braço dele?!

Cæsar considerou aquilo e resolveu não levantar mais da mesa; embora imediatamente uma dúvida lhe passou pela mente:

-- Mas... Então como eu sairei daqui? Nós estamos no fundo do bar, eles estão mais-ou-menos no meio; exatamente no caminho da saída. E se ela nos ver? ME ver quando estivermos saindo? E se ela me chamar? Ai meu deus! To me sentindo numa ratoeira!

-- Eu acho que você fica tão bonitinho quanto se desespera Cæsar. disse Lílliam olhando-o firmemente nos olhos. E quem disse que ela nos verá? Ela parece estar procurando alguém? Qualquer um que não seja o garoto-jambo que ela tem a tira-colo? perguntou ela olhando-o.

Cæsar observou como sua esposa (EX-esposa, corrigiu-se mentalmente) estava embevecida na companhia daquele rapaz, e percebeu que ela já parecia um tanto bêbada: o riso fácil e alto, os gestos erráticos. Sim, provavelmente ela bebeu muito além da conta, deve ter-se encharcado de Cosmopolitan (maldita Sexy And The City! Maldita Jessica Parker!!; pensou Cæsar); mas alí ele viu sua melhor chance de passar despercebido. Como ela estava, Marta não poderia distinguir um camundongo de um porquinho-da-índia. Era simplesmente perfeito!
Virou-se para Lílliam e pediu para irem embora; ele realmente já se sentia bastante alto e não queria ficar olhando sua (ex)esposa se agarrando com o Don Juan ali.
Ela sorriu e disse:

"No meu quarto ou no seu" e explodiu numa gargalhada enquanto se desculpava dizendo: 'Eu SEMPRE quis dizer isso!'.
Cæsar ri desconcertado e murmura "onde você quiser, minha rainha". Ela se delicia, sorri e diz: "então, meu fiel e leal súdito, sua rainha declara que será no seu quarto".

Cæsar faz uma reverência (quase perdendo o equilíbrio ao fazê-la) lhe estende a mão e saem juntos do bar em direção ao elevador. Chegam ao apartamento 1304, ele abre a porta e ela salta sobre ele, beijando-lhe a nuca, mordiscando sua orelha. O corpo de Cæsar vibra, treme de desejo e excitação.

Ele lhe rasga as roupas atirando-a sobre a cama; joga-se sobre ela: a beijando, mordiscando os mamilos, lambendo-lhe o corpo enquanto ela arfa e suspira; incitando-o a continuar.

-- Eu te amo Lílliam! Não consigo imaginar minha vida sem você!! Não sei como, nem porquê, mas tenho certeza que te amo! Diz Cæsar enquanto a toma para si.

Lílliam sorri, encara-o nos olhos empurando-o levemente para longe de si e dispara:

-- Então você me ama, Cæsar?

-- Sim!

-- Diga que sou linda. Pede Lílliam enquanto lambe a orelha de Cæsar; ele estremece e atende seu desejo; enquanto a penetra, Lílliam gira e fica por cima dele, seu corpo quente e macio parecendo embrulhar o corpo de Cæsar.

-- Me adore! Cante meus louvores!! Diz Líiliam.

-- Você é linda! Eu te adoro, você é minha Deusa; minha única razão de existir...

-- SIM! MAIS CÆSAR; MAIS!

-- Huuuuuuuuummmm Líliam, que delícia. Nunca senti nada como isso antes! Você... Você... Você é meu corpo! Minha alma, minha mente! NADA EXISTE A NÃO SER VOCÊ!!

Um estranho e incomum fulgor rubro começa a surgir no quarto, como que irradiado dos corpos sobre a cama. Cæsar começa a sentir um calor que lhe invade o corpo, uma sensação como a embreagez.

-- Que é isso?! Delícia! Você é Maravilhosa, Lílliam! Parece que você me engole!

-- Quem sou eu Cæsar?!

-- Você é minha Deusa do Amor, da Paixão, da Carne! Você é meu tudo!

A brilho escarlate vai ficando cada vez mais intenso até que tudo é engolfado em um escaldante clarão encarnado.
Segundos depois o clarão cessa e Lílliam está sozinha na cama, com uma expressão satisfeita no rosto.
Ela espreguiça-se sobre o colçhão e levanta-se preguiçosamente, a meio caminho do banheiro ela ouve curtas batidas à porta; ela faz um leve gesto e a porta abre-se de par-a-par e um jovem alto, com uma pele lustrosa e extremamente bronzeada; um cabelo luxuriante e impactantes olhos verdes entra no quarto, sorrindo para Lílliam fez um suave gesto e a porta do quarto trancou-se.

-- Como foi a refeição? perguntou ele.

-- Simplesmente DE-LI-CI-O-SO! Adoro quando eles estão loucos, no auge da paixão e fornicam de forma violenta! Ela respondeu enquanto entrava no banheiro e ligava a ducha sendo seguido por ele.

-- Já podemos ir então? Estou famélico! diz ele enquanto entra sob a ducha com ela.

-- Mas Kaine... Eu disse que você poderia ter-se servido da esposa. Ela não era nenhuma ogro. Responde Lílliam olhando de soslaio.

-- Você me conhece, Senhora. Conhece meus gostos! Ela simplesmente não se enquadrava. Retrucava Kaine.

Eles abraçam-se sob a água e tomam banho juntos. Escutam baterem na porta, mais e mais batidas. A funcionárias do hotel anunciando o serviço de quarto.

-- Próxima cidade? Pergunta Lílliam.

-- A próxima!! Responde o homem chamado Kaine.

Eles dão-se as mãos e desvanecem no ar em meio a uma nuvem de fumaça de vapor que escapa da ducha quente.

http://artrenewal.org/pages/artist.php?artistid=6620

segunda-feira, 6 de abril de 2015

-10ºC


Alguém me disse que eu deveria entender...
Entendê-la?

Não entendo, ao certo, como surgiu.

Mas há uma camada de gelo sobre tudo aquilo que construí!
Realmente, passamos nossas vidas construindo, produzindo, criando um ambiente que propicie a quem amamos, tanto quanto a nós, algo de belo, de sublime, de completo nesta vil realidade em que vivemos.

Então chega o inverno de nossa alma, e percebo como meus esforços não são valorizados.
No entanto certos...
Não vejo mais beleza alguma: tudo é branco e cinza e sem cor e sem alegria.
Fica somente a tristeza e a nostalgia do que um dia foi belo.

Houveram pessoas importantes que me ajudaram enquanto eu erijia meu Castelo de Esperanças.
Onde estão agora? Não sei.
O Inverno d'Alma as engoliu e me deixou só.
Tanto zelo...

E vejo tudo ser coberto pelo gelo dos corações mal-amados, pela escuridão da alma de muitos...
Posso até ter sonhos e alegrias... mas esse gelo que nasce no coração de tantos...
Quisera que fossem as obras em gelo de Harbin, na China; e não este tenebroso inverno que a tudo consome, desgasta, aniquila...

Como as árvores de um jardim coberto pela neve após uma temporada de inverno, sinto-me perdendo as folhas, ficando apenas os galhos secos...
Tudo parece sem nexo, não se entende nada!
Não espero que o gelo derreta e volte tudo ao normal, mas o inverno sempre chega...
E é sempre um novo começo...

E de novo olho para a arma em cima da mesa: a lustro, a lubrifico, a carrego e mais uma vez a deixo lá, dizendo carinhosamente: "Hoje não. Ainda não".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Dolina smertnoy teni

Sê bem-vindo.

Sinta-se destinado.


"Ouça as Crianças da Noite, que linda música elas fazem.".
-Bela Lugosi
               Alguns entrarão em suas regiões mais profundas, outros nas menos.
   Uns ficarão muito tempo, outros nem tanto.

   Vós sabereis estardes nele quando acordais chorando, quando os dias correm rápido e vós percebeis já estar em outra segunda-feira.
   Sem que o tempo pareça ter passado, quando nada parece fazer sentido.
   Quando a tristeza for vossa companheira mais frequente, quando vós não enxergardes razão para sair da cama, quando o céu azul é cinza a vossos olhos.

   Quando viver torna-se comer e dormir – se o apetite não desaparece.
   Quando a morte passa a não ser tão assustadora assim.

   Então sabereis estar no Vale da Sombra da Morte!

   E, ao longe, quando o ar estiver queimando vossos pulmões; ouvireis esta singela canção. O canto que vos acompanhará:


Ikalē nū pāpa

'tē mainū dūra dikhā;

rāta nū tē tuhānū mērē ālē-du'ālē vēkha sakōgē.

Sahī atē aniśacita gi'āna

ṭuṭē dila dī kuṭa vica.



Em vossa angústia e tormento, mirareis com cegos olhos a Treva Infinda que se assoma e pronunciarás vosso Lamento:

Ó Morte vem a mim.
Morte, que estejas aqui.
Doce e suave.

Queima minha agrura
neste ódio de tormentura.
Ó Morte, sê minha Salvadora!

As ruínas de minh’alma
são Quimeras horripilantes.
Apenas sombras em meu espírito.

Ó Morte porque não te chegas a mim?
Almejo teu abraço,
desejo a algidez de teu beijo!

Mas não vens.
Olha-me ao longe no horizonte.
Impávida!

Sorri-me,  gélida.
Acena-me um adeus, e se vai
sem mim…





Neste momento percebereis não existir Salvação ou Redenção.
Que infinita é vossa desgraça, pois ela nasceu de vós.


*frankj costa*

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Febre D'oiro

                           Houve um dia, há muito tempo, que algumas pessoas derrubaram o muro do cemitério porque começara a correr um boato que havia ouro enterrado numa das covas...

                           Foram dias e noites de pás, picaretas, lápides atiradas ao largo; defuntos revirados.
                           Os religiosos choravam, rezavam, pediam a deus que aquilo parasse.


                           Como eles foram informados que lá havia ouro, nem choro, nem vela, padre ou pastor, nada demovia aqueles ávidos pelos haveres dos mortos.

                          Todavia a informação era falsa, ouro não havia alí.

                           Sentindo-se ofendidos e ludibriados atearam fogo ao cemitério, porque lá só haviam ossos.

                            E com ossos ninguém lucra, a não ser o sarnento cão.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Aos Moucos, nem os Guinchos do Mocho Alento Trazem

4 de novembro, 23:35:>

Publica numa rede social de amplo alcance, uma mensagem (mascarada de "desabafo"):
“¡Quanto è difficile essere me!”

Quanto tempo terá refletido sobre suas reais dificuldades?
Quanto tempo ainda levará pra aceitar que ele próprio é o principal agente/causador das coisas que lhe afligem?

Sim. Existem coisas que o atingem partidas de outras pessoas... Mas quem opta por baixar a guarda?
Sim. Existem eventos que lhe fogem ao controle... Mas quem opta por hipervaloriza-los?


Este jovem homossexual está com receio (talvez?): receio de abandonar sua confortável zona segura de lamentações irrefletidas, onde apenas há o inerte penalizar-se.
O contínuo e improfícuo autoapiedar-se, oxalá na vaga e amorfa possibilidade que terceiros lhe dêem conselhos, sugestões; alguns mesmo, haverão, que lhe oferecerão psicotrópicas distrações; ilusões psicoativas mas de parvalhona duração.


Quiçá embotará a própria mente e a percepção de si com estímulos fugazes, milifólios miríades de luzes, som e fúria!
Sempre jogando para outra pessoa a responsabilidade (ingrata de todo) da própria felicidade.
Tal jovem não alicerça a felicidade em si mesmo; sempre no movediço terreno da relação, sempre escravizando-se às próprias expectativas sobre o outro e às de outrem sobre si.
Parece querer fazer o exato inverso do Carvalho, e -ao invés de brotar da semente e erguer-se majestoso aos céus; quer arrancar-se (a si próprio) da amplitude magnificente do céu para trancar-se novamente na semente...

Ao longe, ouve-se um Moucho guinchando.


5 de novembro, 03:35:>

Acorda com a boca seca, os olhos semicolados pela secreção excrescente... Abre um olho turvo-quase-cego, arrasta-se pesadamente para fora da cama, tateia a mesa tropegamente, encontra o vidro de comprimidos: "enavomi" ele mal consegue ler o rótulo.
Com inegável esforço abre o vidro, deita duas cápsulas na palma da mão, rompe as drágeas depositando seu pó de cor ocre num copo, enchendo-o à metade de seu bourbon favorito. Dissolve tudo com o dedo e toma de um único gole.
Como se de chumbo fossem suas pernas, ele cambaleia de volta ao leito; deixa-se afundar no colchão.


10 de novembro, 18:45:>

O telejornal do lusco-fusco, repete a notícia dada no plantão de meio-dia:

"Jovem homoafetivo encontrado morto na própria casa. Polícia suspeita de suicídio"


E, assim, morre sem nunca ter vivido, tornando-se poeira e estatística.




https://dl-web.dropbox.com/get/Efeitos/vinhetas%20-%20%28efeitos%20sonoros%29%20-%20coruja%2C%20grilos%20e%20gato.mp3?_subject_uid=256134859&w=AABjoy1B21TnQdYm-pt1tXS9pItHQ4oMyFwmT9uKmGUyjQ
http://png-free.blogspot.com.br

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Vídeo nas Aldeias

Uma cultura, um povo, tudo tem história!
São essas histórias que criam as tradições, as religiões. O "modus operandi" pelo qual agimos/interagimos com / no e sobre o mundo que nos cerca.
Com isto em mente; compartilho uma matéria interessante e o link onde poderão assistir a esta história.
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Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante mais uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e forçá-los a praticar sexo, provocando e capturando - intercalando força e brincadeira - os homens da aldeia.
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As Hiper Mulheres from LA REVOLUCION ES AHORA! on Vimeo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A Igreja do Diabo


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I - DE UMA IDÉIA MIRÍFICA
CONTA um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
II - ENTRE DEUS E O DIABO
DEUS recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai.
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer cousa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.
III - A BOA NOVA AOS HOMENS
UMA VEZ na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas
beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes subtil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os
bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um
monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do
interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado
Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
IV - FRANJAS E FRANJAS
A PREVISÃO do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica.
Pôs os olhos nele, e disse:
  • Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão.
  • Que queres tu? É a eterna contradição humana.

VENHA VER O PÔR-DO-SOL


Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava, encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hein?!
Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço. Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...
Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
Podia ter escolhido um outro lugar, não? -Abrandara a voz. - E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
- Ricardo e suas idéias. E agora? Qual o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está, enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo.
Ela encarou-o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr-do-sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima.
Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... - disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. - Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. - Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. As vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente - exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. - Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê?
Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou-lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o
Oriente. ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como agüentei tanto, imagine, um ano!
- É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. - Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
- Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim. - Deu-lhe um rápido beijo na face.
-Chega, Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! -
Olhou para trás. - Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio - lamentou ele, impelindo-a para frente. - Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de que se vê o pôr-do-sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima.
Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai.
Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza ela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
Vocês se amaram?
Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. - Enfim, não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.
- Eu gostei de você, Ricardo.

-E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um - pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta: de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par.
A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo.
Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão.
As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó - murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada.
Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. - A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas essas gavetas estão cheias?
- Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo?
Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe - prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo.
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... -
Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. - Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando!
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, para ver muito bem... - Afastou-se para o lado. -
Repare nos olhos.
Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... - Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. - Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... - Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. - Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor.
A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso!
Brincadeira mais cretina! - exclamou ela, subindo rapidamente a escada. - Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco. - Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando, devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! - Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
Boa noite, Raquel.
Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! - exigiu, examinando a fechadura nova em folha. -Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. -Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando, as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se, entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido.: No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de, um animal sendo, estraçalhado.
Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento.
Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. –Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.